Estrada de Macadame CCXXII – «CCT – De Contrato Colectivo de Trabalho a Carro, Cão e Telemóvel»

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No tempo da «estrada de macadame» ficou famosa entre as gentes da minha terra a resposta de um rapaz das Relvas (ou da Portela) no Quartel das Caldas à pergunta «Qual a sua profissão?». Respondeu: «Sou ajudante do chófer do João Isaque!».
Quando em 1966 comecei a trabalhar no BPA Rua do Ouro 110, 1º andar, a estrada ainda era de macadame mas já havia contratos colectivos de trabalho. Lembro-me de conversar com a minha avó de Santa Catarina sobre o meu trabalho no Banco, sobre o meu ordenado mensal de novecentos escudos e já dizia que me queria reformar aos cinquenta anos, quando fizesse trinta e cinco de «casa». Ela ficou muito surpreendida por eu ter começado a trabalhar há tão pouco tempo e já falar na reforma mas eu explicava-lhe que já conhecia o meu CCT ou seja Contrato Colectivo de Trabalho. Curiosamente e ao contrário do desejado, vim a reformar-me em 1 de Dezembro de 1996 com quarenta e cinco anos de idade, o mesmo é dizer muito antes dos cinquenta anos que em 1966 eu já referia como meta a alcançar.
O que mudou desde 1966 até hoje foi o paradigma da nossa vida. Pode parecer anedótico mas o facto de hoje em dia a expressão «CCT» significar «Carro, cão e telemóvel» evidencia não só um problema de ortografia mas também uma mudança sociológica. Não se deve dizer nem escrever «carro» porque em bom português a palavra é «automóvel» pois é essa palavra que define o veículo que se movimenta pelos seus próprios meios. «Carro» pode ser, e é muitas vezes, uma carroça que precisa de ser puxada por um animal de tracção. O mesmo é dizer um macho ou uma mula. Mas passando por cima do uso errado da «carro» por «automóvel» segue-se o «cão» que em 1966 não tinha a importância social de hoje e o «telemóvel» que simplesmente não existia à época. Claro que as pessoas também comunicavam mas não como hoje. Agora falam mesmo que não tenham nada para dizer e começam, muitas vezes, as suas comunicações com um péssimo, um monstruoso, um irrespondível «Tázádonde?»
A importância excessiva dada pelas pessoas aos animais em detrimento dos humanos é um problema de civilização, mais um, é uma das doenças sociais do nosso século XXI.
Andam os autarcas todos entusiasmados (uns mais do que outros) com o Turismo no interior do País, formam redes de «aldeias de xisto» e outras, promovem a gastronomia local com os maranhos, o buxo, os bolos de mel, a chanfana, os bolos fintos, os licores mas depois esquecem-se de disciplinar os cães que tanto nas aldeias como nas sedes de concelho circulam a seu belo prazer pois os donos não os controlam nas suas casas, quintais ou adegas. O turista desprevenido prepara-se para saborear um bolo de mel ou uma fatia de bolo finto com uma bica bem tirada quando o focinho do cão vadio e ofegante lhe chega com a boca a milímetros do prato com o bolo. O turista deixa uma bolsa (dessas que os espanhóis chamam mariconeras) numa mesa de uma esplanada e só no dia seguinte alguém se lembra (já o homem se preparava para telefonar para Paris) que talvez o cão tivesse levado a mariconera tal como leva consigo luvas, sapatos e peças de roupa as mais diversas. Lá foram à procura e a bolsa apareceu no local onde esse cão costuma «brincar» com outro cão da mesma aldeia.
Nunca me esqueço embora não recorde bem o ano (talvez 1978 ou 1980) mas ouvi da boca do banqueiro Jardim Gonçalves uma frase aterradora: «Essa gente, porteiros, motoristas, vigilantes e mulheres da limpeza é tudo para queimar, não são bancários. Vem aí o outsourcing». Isto depois de nós, todos nós na estrutura sindical bancária termos penado anos e anos em lutas por uma CCT Vertical a englobar nos bancários todos os empregados dos Bancos. Foi um balde de água fria mas isso hoje é já História.

José do Carmo Francisco