Estrada de Macadame – CCXXIII – «Ficar para tia ou para pentear Santa Catarina»

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No tempo da «estrada de macadame» as conversas tinham mais força do que as imagens. Hoje é ao contrário, toda a gente tem máquinas fotográficas e até os telemóveis servem para tirar fotos. No meu tempo de miúdo, saber falar era uma arte. O meu avô de Santa Catarina sabia manter uma conversa. Talvez por ter sido sacristão e ter ouvido muitas histórias aos padres pregadores da Semana Santa (que vinham de fora) ou talvez por ter viajado muito pelo Alentejo entre o Barreiro e Vila Viçosa numa equipa de carpinteiros a fazer o emadeiramento das casas dos guardas das passagens de nível. Ou, talvez ainda, por gosto; nada se faz bem sem ser por gosto.
Quando se falava numa rapariga lá da terra que estava encalhada e não havia meio de se casar, o meu avô José Almeida Penas dizia: «Esta cachopa ou fica para tia ou para pentear Santa Catarina». A origem da expressão tem a ver com uma procissão que nos velhos tempos se fazia em Paris com uma multidão de solteironas (as catharinettes) à procura de um marido no meio daquela galhofa toda. Daí a expressão «ficar para pentear Santa Catarina» no sentido de ficar para tia.
O meu avô não dizia que um fulano tinha fugido; dizia «ele deu às de Vila-Diogo». Não dizia que alguém revelava segredos ou denunciava amigos: dizia «ele deu com a língua nos dentes». Quando uma pessoa se saía mal de uma tarefa, logo dizia «ele deu com os burros na água». Às vezes apareciam pedintes em Santa Catarina e aconteceu um caso em que o regedor perguntou a uma pobre mulher: «Os seus documentos?». Claro que ela não tinha documentos porque não tinha nada mas sobre essa pedinte o meu avô dizia: «ela anda ao Deus dará».
Quando havia grande tristeza numa família, o meu avô dizia: «aquilo anda tudo pelas ruas da amargura» mas acrescentava «olha que não é a Rua da Amargura das Caldas, nem é a Rua da Amargura de Jesus Cristo a que chamam Via Sacra tal como chamam Gólgota ao Calvário».
Como carpinteiro o meu avô arranjava janelas, portas, mesas, cadeiras e bancos nas casas dos outros mas em casa a minha avó protestava muitas vezes por uma pequena reparação ainda por fazer. Logo o meu avô dizia: «em casa de ferreiro, espeto de pau».
Havia expressões próprias da região algures entre Caldas e Alcobaça. Por exemplo quando uma situação aprecia difícil de definir e explicar com cada um a puxar para seu lado, o meu avô dizia: «a vida é como a morte de São Bernardo; uns a rir outros a chorar». De facto há um quadro de azulejos em Alcobaça com São Bernardo na cama e uns fardes a tocarem pífaros e violas enquanto outros choram o seu pranto.
Quando alguém comia muito o meu avô dizia dessa pessoa «encheu o bandulho» mas a palavra bandulho tem um sentido, digamos, técnico no mundo das velhas tipografias que trabalhavam com caracteres de chumbo. Tratava-se de uma espécie de cunha de madeira com a parte mais delgada cortada em ângulo; servia para apertar e bater as cunhas que fixam as letras assentadas quando se está imprimindo.
Muitas vezes o meu avô explicava a origem das frases. Por exemplo «mais vale um gosto que quatro vinténs» tinha a ver com o facto de o rei D. João V ter tabelado o preço do açúcar em quatro vinténs. Desconfiado de tudo o que tivesse a ver com Tribunais, escrivães e audiências, o meu avô repetia muitas vezes «mais vale um mau acordo que uma boa demanda». Uma última frase: quando uma coisa não prestava ele dizia que era «marca roscoff» mas parece-me que os relógios dessa marca não são assim tão maus…

José do Carmo Francisco