Estrada de Macadame – CCXXIV – «As mãos ao alto do Joaquim Clímaco à porta da Casa Grande»

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Em pleno tempo da «estrada de macadame», tinha eu dez anos, por um sábado à tarde em véspera de dia de festa, mandou-me a minha avó de Santa Catarina buscar a burra ao Vale d´Água das Oliveiras. Correu tudo bem entre os dois até chegar perto da casa do Afonso, o ferrador.

Um cão saltou a ladrar à burra que se assustou e passou, rápida, do trote ao galope. Aquela rua era de terra batida mas, por causa dos Invernos longos daquele tempo, havia muitas pedras grandes colocadas sobre a terra. Mesmo à porta da Casa Grande, tendo eu caído no chão e estando a ser arrastado pela corda da burra, surgiu o Joaquim Clímaco que levantou as mãos e não deixou a burra passar. Lá me levantei e agradeci como fui capaz, todo dorido da queda sobre as lajes mas no meio da confusão nem me apercebi do alcance daquele gesto. Eu era companheiro de carteira do Manuel Clímaco, seu irmão, na escola da nossa terra quando fiz num ano a terceira e a quarta classe. A professora era a D. Mafalda Medeiros. Vivia numa casa que já não existe no meio do Largo principal de Santa Catarina. A dona da casa, a Tia Rosa, dava injecções e não doíam nada.
Para quem acredita no acaso o Joaquim Clímaco apareceu ali, frente ao escritório do senhor Fialho por razão do acaso. As pessoas são livres de acreditar no que desejam mas eu não acredito no acaso. Tenho o direito de acreditar na sombra de Deus que marcou presença naquele sábado de 1961. A mesma sombra divina que em 1978 me guiou para um Largo frente à Capela dos Ossos em Évora onde encontrei o meu cunhado Vítor quando já ia com a minha filha Ana, nascida em Janeiro desse ano, a caminho da estação de comboio para vir para Lisboa. Tínhamos almoçado e, antes de seguir para o Algarve, combinámos um local de encontro na Praça do Giraldo para eu ir mostrar a menina ao meu chefe de contabilidade no Hospital Militar, o capitão António José Afonso. Logo que, vindo do Hospital, cheguei ao lugar, estranhei eles não estarem à minha espera. Eles os três: o meu cunhado, a minha mulher e a minha cunhada por afinidade. Não havia ao tempo telemóveis nem eram precisos pois a coisa estava combinada para um lugar e eles não estavam no lugar determinado do encontro.
Farto de esperar, arranquei por ali abaixo, decidido a apanhar o próximo comboio para Lisboa. Acabavam as férias que nem tinham começado, acabaria talvez um casamento com dois anos de vida. Naqueles momentos de tensão eu não compreendia e ainda hoje não compreendo como é que a minha mulher não ficou à nossa espera no local marcado em vez de ir atrás do irmão que, passando por cima do combinado, foi à procura de uma bomba de gasolina. Isto só percebi eu quando, perto da Capela dos Ossos, já a caminho do comboio parra Lisboa, vi surgir junto a mim um automóvel preto marca Austin Cambridge. Tal como na tarde de sábado em que o Joaquim Clímaco parou a burra que me arrastava junto ao escritório do senhor Fialho, não foi o acaso que guiou o meu cunhado para a Capela dos Ossos. Évora não é uma cidade pequena.
Há quem acredite no acaso; eu acredito na sombra de Deus. A cada uma a sua verdade. Ou, como escreveu Raul Brandão nas suas «Memórias»«Todo o esforço humano é no fundo uma lenta aproximação de Deus, assim como tudo na vida se resolve segundo a forma por que cada um encare Deus…»
Mais palavra menos palavra é isso mesmo que eu quero dizer ao recordar estes dois episódios da minha vida. Um em Santa Catarina com dez anos de idade a regressar do Vale d´Água, outro em Évora já com vinte e sete anos a caminho do Algarve. Dois tempos e duas idades mas a mesma presença da sombra de Deus.