Estrada de Macadame

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CCV – «Ambrósio Machado – Natural da Vila de Turquel»

Gosto muito da minha terra, coloco o seu nome (Santa Catarina) em tudo quanto é sítio, dos livros que escrevo à Internet onde colaboro em vários Blogs, eu que nunca fui muito dado a bairrismos. Nem no tempo da «estrada de macadame», quando me lembro de, por exemplo, ir a pé à Benedita, ter sede e pedir água à porta das casas mas as pessoas preferiam oferecer antes um copo de água-pé. Ou ir a Turquel a pé, pelos Frazões, para aviar uma receita médica na Farmácia – coisa que não havia na minha terra. A minha terra não é melhor do que as outras: tem coisas e pessoas que as outras terras não têm mas é, sobretudo, diferente. Pela sua história, pela sua arte, pelas suas figuras, cavaleiros e bispos, escritores e poetas.
Sempre olhei com simpatia para as terras e gentes vizinhas da minha terra – Carvalhal, Vimeiro, Turquel, Benedita. Descobri num livro recente que Ambrósio Machado (pseudónimo de José Barbosa) era natural da Vila de Turquel. O seu nome e a sua obra figuram em onze das trezentas páginas desse livro e tem a capa de um dos seus livros reproduzida na página 150.
Em «O Primeiro Marquês de Alorna» (Editora Tribuna da História), seu primeiro trabalho publicado em volume autónomo, o jovem investigador Filipe do Carmo Francisco (n. 1981) aborda a carreira de D. Pedro Miguel de Almeida Portugal (1688-1756) que foi Vice-Rei da Índia entre 1744 e 1750.
Conforme o subtítulo indica, o Conde de Assumar (1733), Marquês de Castelo-Novo (1744) e Marquês de Alorna (1748) foi o restaurador do Estado Português da Índia. A partir do massacre de Aldoná (1737) no qual perderam a vida quatro companhias de granadeiros, D. Pedro reorganiza, aos poucos, a força militar portuguesa na Índia e empreende as diversas campanhas com ataques navais e expedições terrestres contra os vizinhos mas sempre sob a ameaça do Marata e da pirataria, quer do Angriá quer do Bounsuló.
Os panegíricos publicados em Lisboa, Paris e Roma entre 1715 e 1759 em louvor dos Vice-Reis Setecentistas da Índia, mostram que só para D. Pedro são escritas 43% das obras mas, curiosamente, o texto impresso que vai perdurar até 1961 é a célebre Instrucção que D. Pedro escreveu para o seu sucessor, o Marquês de Távora.
Estranhos são os caminhos da posteridade: esquecidas as centenas de páginas escritas em seu louvor, o contributo de D. Pedro para a história de Goa, Damão e Diu está nas sucessivas reimpressões do seu relatório de 1750 sobre a realidade física e humana, geográfica e social, política e religiosa da Índia Portuguesa.
Para mim é uma festa, uma alegria, uma comoção, saber que um vizinho e antepassado nosso da Vila de Turquel aparece na tese de mestrado do meu filho. Afinal o rapaz tem raízes por aqui: o seu avô José Francisco foi motorista dos Capristanos, a sua tia Francelina vendeu fruta e animais na Praça da Fruta, o seu pai (eu) fez a terceira e a quarta classe nas Caldas da Rainha além da recruta no Quartel do RI5 e o Filipe (ele-mesmo) passou férias na Foz do Arelho. Mas este autor nosso vizinho da Vila de Turquel cujos livros e outros escritos ele (Filipe) utilizou para a sua dissertação de mestrado é, também, uma raiz. Mais cultural que geográfica, mas raiz.
«Eu, comovido a Oeste…» poderia ter sido o título desta crónica. Foi preciso ler o livro do meu filho para perceber que há um autor desconhecido de Turquel. A partir de hoje quero descobrir e saber algo mais sobre esse natural da Vila de Turquel. O agora já nosso Ambrósio Machado – aliás José Barbosa de seu nome civil.

José do Carmo Francisco

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