ETEO 2 – Colégio 2

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jorgevarela

Recebi muitas reações à minha última crónica intitulada “Colégio 2 – Técnica 1”, na qual criticava a forma facciosa, quase clubística, como a questão das escolas com contrato de associação anda a ser discutida.

Entre as reações que não foram de apoio, encontravam-se algumas muito interessantes, escritas com inteligência, mantendo, inclusivamente, o tema futebolístico como pano de fundo. Foram os que perceberam que a questão nada tem a ver com a Escola Secundária Bordalo Pinheiro, escola que muito prezo e me orgulho de ter nas Caldas. Outras reações mostravam apenas um sentimento de revolta pelo facto de, segundo o título da crónica, a Técnica estar a perder o fictício jogo de futebol. Estes limitaram-se a confirmar o que escrevi na última crónica: para eles tudo isto não passa de um jogo e não importa a questão de fundo, nem os alunos, os pais, os professores e restantes funcionários do Colégio.
Assim, para evitar engulhos, esta semana promovo um empate entre duas escolas das Caldas da Rainha, o Colégio Rainha D. Leonor e a Escola Técnica Empresarial do Oeste. São ambas escolas não estatais onde os alunos não pagam para lá andarem (na ETEO até recebem) e são ambas de excelente qualidade.
Hoje, o atual governo diz que as escolas com contrato de associação não devem ser financiadas e que os seus alunos devem passar para as escolas do Estado, sem sequer atender às escolas que os alunos e pais preferem… e se as preferem, por alguma razão será. Apesar desta medida impossibilitar os filhos dos pobres de continuarem a estudar na escola que escolheram e que o Estado lhes tinha dito que poderiam frequentar, muitos são os que não se importam com essa discriminação ou com o possível fecho dessas escolas e com o desemprego de professores e restantes funcionários.
Amanhã, seguindo o mesmo raciocínio, o governo pode dizer que as escolas profissionais não estatais como, por exemplo, a caldense ETEO, também não devem continuar a receber dinheiro público, pois os cursos profissionais que os alunos lá frequentam também podem ser ministrados nas escolas estatais, como a Bordalo Pinheiro ou a Raul Proença.
E aí, talvez já seja tarde demais…
É que, como dizia Bertold Brecht, primeiro levaram os operários, depois os miseráveis e os desempregados. Como eu não era operário, nem miserável ou desempregado, não me importei com isso. Agora estão a levar-me a mim, mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém, ninguém se importa agora comigo.
Não podemos deixar que o árbitro deste jogo entre escolas seja o proprietário de algumas dessas escolas. Eu quero que os caldenses, desde os mais ricos aos mais pobres, possam colocar os seus filhos a estudar nas melhores escolas, sejam elas estatais ou não. Se olharmos para os rankings, podemos inclusivamente ver que a melhor escola das Caldas é a Raul Proença, que é uma escola estatal. O Liceu não se queixa de falta de alunos por causa do Colégio Rainha D. Leonor nem por causa da ETEO. Agora vem o Estado dizer quais as escolas que devem ter dinheiro para funcionar e quais as que não devem ter e, surpresa das surpresas, apenas as do Estado continuam a viver à custa dos nossos impostos. As que não são do Estado, mesmo que sejam melhores, passam a estar apenas ao alcance dos filhos dos ricos.
É claro que não concordo com o esbanjamento de dinheiros públicos, a que se tem assistido nestes últimos meses, e que podem deitar por terra os sacrifícios que os portugueses têm feito ao longo destes últimos anos. Mas também não concordo que se aumente a despesa para resgatar a banca e se façam cortes cegos na educação. Se houver escolas a mais para o número de alunos que existem, haverá certamente margem para poupança mas o critério não deve ser se a escola é estatal ou não estatal. O critério deve ser o da qualidade das escolas.

Jorge Varela
jorge.varela@ipleiria.pt

 

1 COMENTÁRIO

  1. Bom dia,

    Como aluno só conheci a realidade do ensino público mas como professor pude, em duas efémeras passagens, conhecer também o funcionamento de estabelecimentos de ensino privados. Penso que isto me pode dar algum crédito para dar opinião.

    E porque falou das Caldas da Rainha, de onde sou e onde leccionei em alguns dos anos (poucos) que tive oportunidade de trabalhar na área em que me formei, é mesmo por esta questão que começamos:

    Justificava-se a construção de duas escolas privadas no concelho? Eu creio que não. Na altura eu estava colocado numa das escolas públicas, a qual teve de limitar matrículas e redireccionar alunos para o Colégio Rainha Dona Leonor.
    A escola em causa tinha capacidade para mais mas foi obrigada a reduzir e calculo que o mesmo tenha acontecido nos outros estabelecimentos públicos. Na altura ninguém falou dos despedimentos associados a esta medida…

    Se é mais vantajoso financeiramente para o Estado ter estes contratos… acho estranho (mas o que sei eu?) ser mais barato construir 2 escolas de raiz do que fazer obras (ah!, mas elas tiveram de ser feitas!) nas escolas públicas.
    Por outro lado, não me admiraria ser mais vantajoso manter os contratos de associação: os salários dos funcionários no CRDL (e no privado em geral) são mais baixos que os salários pagos pelo Estado. Pagando menos e a menos funcionários, e valor médio por aluno baixa. E ainda dá para os Directores e (neste caso) para o grupo GPS.
    Talvez a construção dos colégios não tenha entrado nas contas. Talvez tenha entrado nas contas do Grupo Lena, como “investimento” na região… É certo que passou a estar muito mais presente na zona.

    Passando à ETEO, é uma realidade que não conheço. Mas julgo que oferece um tipo de ensino que há anos atrás estava também presente nas escolas públicas. Os mesmos dirigentes que retiraram essas opções do domínio estatal foram os que massificaram os contratos de associação. Não estou de má fé, mas parece mesmo que o interesse não é na qualidade…

    Vou terminar com a questão da qualidade. Como se mede? Pelas notas dos alunos? Pela média nos exames? Para não entrar na polémica forma de inflaccionar esses valores, comparemos a ETEO com o CRDL. Temos duas instituições não-Estatais num universo (suponhamos) de falta de alunos. Corta-se o investimento à ETEO porque os alunos obtêm (?) notas menos altas, ou ao CRDL, que oferece um serviço mais semelhante ao prestado nas escolas públicas?
    Ou corta-se no ensino público? Baixa ainda mais a qualidade, justificam-se novos cortes, até não restar nada. Foi o que aconteceu na Linha do Oeste. Felizmente alguém inverteu essa política.

    Com os melhores cumprimentos

    PS: Quanto aos despedimentos e à “casa” de tanto professor – conheço vários colegas colocados nestas escolas privadas, que estão em casa sim, porque estão próximos das suas residências, enquanto muitos docentes do ensino público se sujeitam a grandes deslocações (o que faz o salário inferior dos primeiros parecer maior). Mas ainda assim, todos os anos os seus nomes estão nas listas dos concursos às escolas públicas! Curioso, não?