Eu fui à Feira de Castro

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O anúncio estava feito. E na passada sexta-feira dia 17 – o primeiro e mais fraquinho dos dias da feira – por lá passei umas horas, na que é considerada a mais importante das feiras do Baixo Alentejo, antes do frio Inverno.
Trata-se de uma feira regional onde se pode ouvir o som da viola campaniça, as vozes dos cantares alentejanos e ver e degustar os sabores tradicionais do Alentejo.
Terá sido em redor de um velho castro lusitano, decerto com muita vegetação, que se fixaram as primeiras populações e se  promoveu o desenvolvimento destas terras: daí a toponímia do concelho.
Também nestas terras, mais precisamente no outeiro de S. Pedro das Cabeças, terá culminado a batalha de Ourique, ocorrida nos Campos de Ourique, a que pertence Castro Verde, com a decapitação dos resistentes mouros.
No local foram encontrados vários esqueletos separados da caveira, o que comprova (…) a degolação dos reféns, ordenada por D. Afonso Henriques.
Tem foral desde 1510, outorgado por D. Manuel I.
O seu património arquitetónico justifica a visita, mas não foi ele  que  projectou a Feira de Castro.
Numa época em que era patente a dificuldade de transporte de pessoas e animais, a sua importância ficou a dever-se ao volume das transacções económicas e por constituir local e motivo de reunião entre familiares que se encontravam dispersos e de confraternização entre os vizinhos dos concelhos limítrofes.
Relevante era o volume de frutos secos ali comercializados. Os frutos secos eram ingredientes utilizados na  doçaria conventual, os doces confeccionados nos conventos, também caracterizados pela utilização de grandes quantidades de açúcar e gemas de ovos.
A origem da nossa doçaria conventual terá origem no século XV, período que o açúcar entrou na tradição gastronómica dos conventos. O principal adoçante até essa altura era o mel. Com a povoamento da Ilha da Madeira, o açúcar recebe  atenção especial, com o cultivo da cana de açúcar. É curioso referir que as primeiras experiências de cultivo da cana de açúcar ocorreram na zona de Quarteira, no Algarve – hoje Vilamoura – terras do Infante D. Henrique.
A lista de doces conventuais é extensa e abrange todas as regiões de Portugal. Saliente-se, ainda, que a confecção de um determinado doce pode variar consoante a região, e o convento de origem.
De leitura sobre o tema aconselho Doçaria dos Conventos de Portugal, Saramago, Alfredo, Fialho, Manuel, Editora Assírio & Alvim, Lisboa.
Estes mesmos autores publicaram, sob o patrocínio dos CTT, livro sobre o tema com fotos dos doces em selos.
Aos CTT deve a cultura gastronómica, “Comer em Português”, de
José Quitério, “Sabores da Europa… com selos”, com coordenação, também de José Quitério e “Sabores da Lusofonia…com selos”, de David Lopes Ramos, saudoso jornalista do Público, especializado nas áreas da gastronomia e dos vinhos,
Pequena nota: a última que se realiza em cada ano na região alentejana é a Feira dos Santos em Alvito.

João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com