Face à realidade, como pensar? como agir?

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Isabel Xavier
professora

Sou professora desde o dia 20 de outubro de 1981. Há mais de quarenta e um anos. Há muito tempo. Há demasiado tempo? No meu caso, ao contrário do que seria de esperar, ao contrário do que eu própria esperaria, o decorrer do tempo não contribuíu para me incompatibilizar com o exercício da profissão, antes o tornou mais central e significativo no conjunto de que se faz a minha vida. Não posso falar por outros, o único caso que conheço verdadeiramente é o meu e apenas dele posso dar verdadeiro testemunho.
No passado dia 14 de janeiro, um domingo, recebi um email assinado por duas alunas que ingressaram este ano letivo na universidade, com o seguinte título: “Ex-alunas com saudades”. No corpo do texto, escreviam assim: “Bom dia professora! Esperamos que se encontre bem. Escrevemos-lhe este email diretamente de Toulouse, França, para lhe dizer que esta cidade nos faz lembrar de si, e das suas aulas durante os três anos de secundário. Visitámos imensos monumentos lindíssimos e pensámos que os gostaria de ver também, seguem em anexo algumas fotos desta cidade maravilhosa. Temos muitas saudades, a faculdade está a correr bem, porém, está a levar-nos ao limite (queremos voltar para a Raul e para as suas aulas!) Como tem estado tudo por aí?”
Seguem-se as despedidas e um post-scriptum assegurando que “Sim, os croissants são tão bons como parecem”, visto que figuravam numa das imagens anexas. Claro que não vou divulgar o nome destas alunas às quais respondi, repetindo algo que me ouvi várias vezes dizer a mim mesma em algumas das aulas do ano passado, às turmas do décimo segundo ano: “Ah, eu vou ter saudades disto, sem dúvida que vou!” Dizia-o porque os alunos estavam prestes a concluir o secundário, deixando de fazer parte do meu dia a dia. Agora que eles já seguiram os seus caminhos, vejo que o dizia também por ter consciência de que já faltou mais para que eu chegue ao fim da minha carreira docente e, tal como eles, vá prosseguir uma nova etapa da minha vida.
A vida de uma professora faz-se de muitas experiências, nem todas tão gratificantes como esta que acabei de descrever, mas o que fica é a consciência das boas recordações e os laços que nos permitiu estabelecer. Para responder à questão que as minhas alunas me colocaram: “Como tem estado tudo por aí?”, direi que, por aqui, os professores encontram-se em luta; os professores têm muita razão para essa luta; os professores têm muitas razões para lutar. Mas que não se fiem nas reportagens que sobre essa luta ocorrem nas televisões, nem nas palavras de quem nelas comenta o que se passa. Porque a situação atual se inscreve numa realidade mais vasta: os professores cansaram-se de esperar, os sindicatos modificaram-se na sua essência, a conjuntura política determina que aqueles que nunca se interessaram pela educação sintam agora nela um terreno propício para os ajudar a desestabilizar o ambiente político. Ou seja, que muitos fatores concorrem para a perplexidade que me levou às questões formuladas no título desta crónica. ■