Em Ferrel há 40 anos. Pela Vida e Contra a Nuclear

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1-Já havia passado mais de um ano do levantamento da população contra o empreendimento nuclear de Ferrel, que hoje sabemos (como é possível que estivessem a prever a construção sem o saber?) está perto de uma falha sísmica similar a que ocasionou o maremoto de Fukushima.
A mobilização tinha passado de local a nacional, com a ajuda de universitários ilustres, o incipiente movimento ecologista (contra o movimento conservacionista há que referi-lo!) começou a gatinhar.
Por iniciativa da Gazeta das Caldas e de grupos por aqui e por ali organizou-se nos dias 21 e 22 de Janeiro de 1978 o Festival Pela Vida e Contra a Nuclear, que este ano vamos recordar nos dias 20 e 21 nas Caldas e Ferrel, como na altura, com um colóquio e uma acção pública.
2-Depois dessa luta tivemos que enfrentar a nuclear em diversas ocasiões e sob diversas formas. No livro “Almaraz e Outras Coisas Más” (Edição Gazeta das Caldas) que coordenei e saiu a público em Dezembro contamos em detalhe muitas delas.
Dos planos energéticos que previam um número assustador de centrais, à mineração na Urgeiriça e depois em apoio à recuperação das terras e ressarcimento dos trabalhadores, da oposição à abertura de um estaleiro em Nisa à luta nacional e internacional contra os despejos radioactivos na fossa Atlântica.
E também nos manifestámos contra as armas de urânio enriquecido e contra os Pershings e os SS20, e pelos direitos humanos, todos.
E claro as lutas ibéricas contra o cemitério nuclear de Aldeavila, as centrais nucleares que não se fizeram de Sayago e Valdecaballeros (no Douro e Guadiana) ou agora o projecto de mineração de Retortillo a dez quilómetros da fronteira, no Douro!, ou contra a continuação do funcionamento, em esforço e enorme risco das centrais de Almaraz ou das outras em Espanha (e a de Trillo sobre o Tejo e pertencente também à EDP!).
Bom mas águas passados movem moinhos…
3-Das derrotas da nuclear, em Portugal e a nível mundial, tem surgido, mais ou menos lentamente, um novo paradigma de produção de energia e temos que o converter em base de desenvolvimento de sustentabilidade e equilíbrio ambiental.
Em frente onde hoje poderia estar uma central nuclear, em Ferrel, temos uma unidade piloto de produção de energia das ondas. E por todo o concelho de Peniche a economia (circular) tem relação com o mar, a pesca, o surf, a paisagem, onde também temos aerogeradores e algum aproveitamento do calor e luminosidade solar.

Com a eficiência e a conservação de energia e novas lógicas de produção que rentabilizam a tradição com a inovação, com novos desenvolvimentos tecnológicos (as baterias e a inteligência digital) temos o que nos pode colocar à beira de um novo mundo.
4-Mas para tal temos que empenharmo-nos também na luta contra as ideias negras que nos faíscam dos fósseis, como a peregrina de explorar petróleo seja em terra (mas e os índios, nós, que nela vivem?) seja no mar, onde a instabilidade e a incerteza arriscam um elefante branco, além da contradição com os compromissos de reduzir as emissões que contribuem para as alterações climáticas.
E temos que levar as nossas autoridades, municípios, parlamento e sobretudo  governo a empenhar-se na oposição aos projectos desastrosos de exploração de urânio na fronteira e de prolongamento da vida, instável e cheia de fissuras, dos reactores de Almaraz.
A luta, que marcou o movimento ecologista em Portugal (e Espanha que muitos espanhóis estiveram na altura por cá!)  contra Ferrel foi, também, uma luta pela Vida e as alternativas energéticas. Hoje Portugal produz mais, e até muito mais, de metade da sua electricidade a partir de fontes renováveis e temos que continuar esse caminho, que passou por uma praia, onde a Rosalinda pode continuar a passear…. e a olhar o mar.

António Eloy