Limite à Fragmentação da Ruralidade

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Saikiran Datta
Investigador

A destruição das estruturas rurais históricas traz no seu rasto algumas observações. O agricultor – auto-suficiente e isolado –, possuindo acesso à água na periferia da povoação, geria o casal agrícola. Na sua origem, o casal fazia parte da villa rustica, mantendo a sua estrutura essencial à volta de um pátio interior. A sua implantação deve-se à concessão régia de privilégios, aforamentos e doações à classe rural. Historicamente, as quintas e os casais são estruturas emparceladas a partir das villae romanas. As propriedades agrícolas têm vindo a ser aniquiladas em nome do desenvolvimento urbano. Recentemente, a Quinta da Serra rendeu-se à zona empresarial da Benedita. Importa saber quantos casais se perderam desde o 25 de Abril de 1974. Em apenas duas freguesias de um concelho na região Oeste registou-se, entre 1990 e 2010, a morte de treze antigos casais graças aos projectos turísticos, industriais e empreendedores. Variando a área de um casal entre 6 a 30 hectares, podemos imaginar a perda da produtividade agrícola e da economia doméstica familiar.
A agricultura contextualiza a perspetiva histórica e socioeconómica de um país encruzilhado entre o rural e o urbano. A lógica demolidora arrasa qualquer resistência às ambições urbanísticas quando empenhada em destruir o património rural, havendo sempre uma desculpa ‘válida’ para justificar tais actos. O valor da historicidade não se julga apenas pelo achado arqueológico, nem o valor patrimonial se limita à avaliação arquitetónica. Como a paisagem rural, espalhada e interligada, constitui um conjunto, a destruição de um elemento significa a perda do todo. Uma sociedade que desvaloriza a história e a identidade rural condena o seu próprio passado.
Ao emparcelar a ruralidade, o homem moderno tenta dominar a natureza, convertendo a sua incompletude em poder. Ele é como um cruel toureiro, insensível à espiritualidade do mundo rural. Veja como os caminhos rurais são alcatroados; as fontes desactivadas; as antigas capelas caídas em desuso; os moinhos e os lagares reduzidos a mero edificado, esvaziados dos engenhos e das funções que os tipificavam; as eiras desmanchadas das descamisadas; as vinhas arrancadas para plantar condomínios fechados, enforcando-as como decoração nos alpendres; e o laborioso burro, o antigo companheiro e morador da loja, reduzido a uma estátua de pedra ou à figura de entretimento nas corridas (Ferrel).
As aldeias agora se tornam bairros dormitórios de pessoas desconectadas, sem se assegurarem a algo comum que as enraíze ao passado, à medida que estas estruturas desaparecem melancolicamente por acção humana. As suas periferias expandem-se além da visão do velho casaleiro, invadindo desarmoniosamente os campos agrícolas. A ruralidade reduzida nos limites da expansão fragmenta-se, marginalizada num aterro de camadas de memórias residuais, adormecidas e esquecidas. ■