Mais de 70 dias de greve académica (2º capítulo)

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Depois de mais de 13 semanas de greve académica, estamos no Québec em vias de ultrapassar em termos de duração, a crise académica portuguesa de 1962. Como naquele longínquo ano ainda a nossa formação escolar não ia além da pachorrenta vivência da antiga Escola Comercial e Industrial  Rafael Bordallo Pinheiro, à sombra do arvoredo da mata da cidade termal, esta crise de 62, com uma duração de 100 dias, passsou-nos completamente ao lado. Por isso usamos este espaço para agradecer a amabilidade do leitor, que na passada semana para ela nos chamou a atenção. Se a oportunidade surgir, dentro de uma dezena de dias, na nossa próxima, e, como de costume, curta estadia nas Caldas, adquiriremos a obra que relata aqueles conturbados tempos de contestação académica em Portugal. Esperamos apenas, agora que a livraria 107 já faz parte do passado, que outro espaço comercial tenha à venda, o livro das Edições Tinta da China, com o titulo “100 dias que abalaram o regime – A crise académica de 1962”, que nos foi  amávelmente referenciado pelo atento leitor da nossa última crónica.
Voltando à situação no Québec, depois de uma longa reunião de várias horas na passada semana, em que participaram os membros do governo, os lideres estudantis e representantes sindicais, poderia pensar-se, que estava à vista o fim deste conflito, com a assinatura dum acordo de princípio entre todos os participantes. Os jovens lideres estudantis, no entanto, e como é norma neste país,  tiveram de explicar os termos desse acordo às bases. Termos estes que não foram aceites pelos estudantes, reunidos, dia após dia, em Assembleias Gerais, nas diferentes  escolas. Voltou assim tudo à estaca zero.
Entretanto e infelizmente, em Victoriaville, uma pequena cidade a cerca de 200 Kms de Montreal, assistiram-se aos primeiros confrontos violentos entre alunos e forças da ordem. Em resultado da carga policial, um dos jovens ao ser atingido por uma bala de borracha perdeu o uso dum olho. Como represália, durante a semana que findou a 12 de Maio, quatro estudantes mais radicais, lançaram o caos na nossa cidade, com o rebentamento de bombas fumegantes numa das linhas do Metropolitano, em plena hora de ponta matinal. Graças ao visionamento dos vídeos e das fotos, captados pelos utentes do serviço público de transportes, os autores foram de imediato identificados, e passados dois dias entregavam-se de motu proprio às autoridades policiais.
Uma análise superficial e incompleta desta greve, por alguém que não conheça a organização da nossa sociedade, poderá levar o leitor mais distraído, ou com ideias pré-concebidas, a assimilar de imediato as opiniões veiculadas por grupos radicais ligados aos pequenos partidos de extrema esquerda, sem qualquer representatividade junto da população, que continua a apoiar o nosso Primeiro Ministro, Jean Charest, e a Ministra da Educação, nas suas posições de inflexibilidade, no que diz respeito  ao aumento das propinas. Começa-se no entanto a recear que a sessão estudantil esteja de facto perdida, e que, o que até agora tem sido uma greve pacífica, se tranforme  em acções de carácter violento.
E já se ouvem, de todos os quadrantes e de forma subtil, apelos incessantes aos intervenientes para que se chegue a um  consenso, no qual não haveria vencidos nem vencedores, e que passaria  pelo congelamento das propinas no próximo ano lectivo, e em que nas próximas eleições provinciais, a acontecerem  o mais tardar dentro de doze meses, este tema seja debatido em profundidade por todos os partidos com assento na Cãmara dos Comuns.  Ao contrário do que se passa em Portugal, onde políticos fora do activo, e que deveriam normalmente contentar-se em gozar plenamente  as chorudas pensões de reforma que lhes são pagas pelos contribuintes lusitanos,  em vez de estarem constantemente a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, inflamando dessa forma e desnecessariamente a população  ( a tal cultura democrática de que falávamos na última crónica), no Québec, e por extensão no resto do Canadá, a aceitação pela oposição da existência dum governo legitimanente eleito, implica por parte dessa mesma oposição, o reconhecimento da derrota das suas ideias. Esta  é uma componente básica e essencial do contrato social, no qual participamos, como membros de pleno direito da sociedade canadiana.
As mudanças mais radicais podem no entanto ter a sua génese  na rua. Mas deverão sempre concretizar-se nas mesas de voto. Não impede que na nossa sociedade, todas as opiniões e todas as ideias se podem livremente exprimir. Como dizia um Primeiro Ministro Britânico, a democracia parlamentar é realmente um péssimo sistema governativo, mas no entanto, é o menos mau de todos os sistemas conhecidos.  A existência duma ditadura, duma maioria legitimamente eleita, pode por vezes ser causa de imensas frustrações para todos os que pensam de forma diferente, mas uma ditadura duma minoria será definitivamente bem pior. Daí, a nossa aceitação, bem como da grande maioria dos cidadãos quebequenses,  da actuação do actual governo. O Primeiro Ministro Charest, depois que a crise começou, não teve ainda  necessidade de se justificar uma única vez perante as cãmaras de televisão nacionais. As vozes discordantes, que são muitas, por uma questão de respeito, têm tido uma actuação similar.
Perante isto, temos obviamente de concordar que, qualquer semelhança com o (a)normal comportamento dos membros da classe política portuguesa, é pura coincidência. Temos consciência de que para quem está habituado ao tipo de jogo político que se pratica em Portugal, esta forma de agir é difícil de entender. Somos no entanto da opinião que um país como o Canadá, uma das mais antigas democracias parlamentares do planeta, não tem lições a receber dos hábitos democráticos dum país como Portugal, onde grande parte da sua população ainda guarda bem vivos, todos os traumas das longas trevas dos consulados de Salazar e Caetano, e em que apenas neste momento, a classe política no activo, viveu desde o berço em plena liberdade.

J.L. Reboleira Alexandre

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