MEDIANA VIRTUDE – Entre o Facho e o Promontório

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Conceição Henriques

São poucas centenas de metros e nelas cabem tudo o que garante um Verão Feliz.
Às vezes, como uma lotaria inexplicável, pelo menos aos nossos saberes limitados em matéria de geografia, as marés descem para fazer emergir uma praia de pequenos rochedos e poças de águas tépidas, de um verde esmeralda a rivalizar com os trópicos, mas mais límpida e cristalina. Se a ocorrência é pela manhã e o sol se oculta ainda parcialmente atrás do Facho, o Paraíso é ali e a bruma impregnada de maresia que a noite deixou para trás ainda se pode ver e sentir na pele. Se é à tarde, e o sol já dispôs um rasto de luz argentinado sobre o mar, parece que o dia vai durar para sempre e aproveitam-se avidamente todos os minutos para que nada nos escape, cientes que estamos de que o dia seguinte será, seguramente, diferente.
Quem não for dado a filas ordenadas e vizinhanças próximas assenta arraiais do lado esquerdo de quem olha para o mar, num quadro de geometria variável e colorida de toalhas, toldos e guarda-sóis e mudança intermitente de convivências, mas há também quem não dispense a rotina de anos, às vezes décadas e, seguindo um ritual, não escrito, mas bem interiorizado, contra estipêndio razoavelmente modesto, regresse à mesma barraca e aos mesmos conúbios, para um Verão sem perturbadoras inovações, havendo ainda quem, não se enquadrando numa categoria, nem na outra, simplesmente se estique de forma indisciplinada e inteiramente libertadora, entre as barracas e o mar, desafiando os rigores do sol e o ordenamento do território.
Outros ainda, forasteiros desconfiados deste mar profundo, revirado e de voz cava, que parece nascer e morrer no fundo da nossa garganta, e não habituados ao sedutor jogo de despique e reverência que, com ele, quem por aqui nasceu ou cresceu aprendeu desde cedo, refugiam-se na placidez elegante e dissimulada desse espelho, aparentemente inofensivo, a desaguar no mar, que é a Lagoa de onde se pode observar ‘o lado de lá’ e o seu promontório, que já não nos pertence, senão como entalhe vertical e definitivo do nosso horizonte.
Os dias transcorrem ao ritmo que a meteorologia permite e deles se espera tão-somente que o sol apareça para dissipar as densas neblinas, o vento se aquiete e o mar não desça acintosamente abaixo daquele limiar que, sendo inaceitável para toda a gente, por aqui se julga com indulgência e bonomia e que, de preferência, suba até aquele outro limiar raro, que, sendo meramente sofrível para outros, a nós aparece como uma deleitosa fonte de água termal.
Posto isto, estamos prontos para encontrar os amigos de infância que por estas alturas regressam estoicamente de outras paragens, e com eles, seja em passeios frente ao mar, seja, ainda com a pele quente e áspera da areia e do sal, num jantar de fim de tarde, numa esplanada, a perscrutar a linha do horizonte e a tentar adivinhar se os astros confirmam a previsão do estado do tempo, tropeçar num fio invisível que nos transporta para o passado e que faz com que todo o tempo desague no momento presente.
Chegado Setembro, só os indefectíveis regressam em busca desse pedaço de horizonte que, entre o Facho e o Promontório, é todo o horizonte de que precisamos, porque o que lhe falta em largura, sobra-lhe em profundidade de memória e sonho, e o fim da época balnear, anunciado pelas marés vivas, é apenas o interregno de uma longa tradição que retomamos religiosamente com os primeiros raios de sol da Primavera seguinte.

Conceição Henriques
couto.henriques@gmail.com