Meu querido, mês de agosto…

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Catarina Tacanho
farmacêutica

…É tempo de parar.
Quem me conhece já me ouviu dizer a 1 de janeiro que “estamos aqui, estamos no Natal”. O tempo escapa-se nos dedos, como a areia.
Como diz o José Luís Peixoto, “devagar, o tempo transforma tudo em tempo”, na sua explicação da eternidade. Amor, ódio, dor, tudo a seu tempo, se transforma em tempo.
Somos vítimas do tempo. Achamos que passa a correr (a sério?), que é o nosso principal inimigo, que nos envelhece, que nos “rouba” tempo, que anda mais rápido que nós.
O tempo não é mais que uma sucessão desesperada de agoras, sempre a acontecer. Não há como trava-lo fisicamente. Apenas metaforicamente… Mas tudo isso é metafísica, meu amor, porque na verdade o tempo passa sempre à mesma velocidade, a nossa perceção é que muda. Não é só o tempo, mas a cognição… as emoções, as experiências, as expectativas, os sentidos, os momentos. O tempo “voa” mais rápido quando estamos a experienciar coisas novas e desafiantes.
Para as crianças, o tempo demora a passar, o dia tem tanto tempo, tantas possibilidades… Entramos na adolescência queremos fazer tudo e parece que não chega, depois entramos ligeiramente na dita idade adulta e continuamos a valorizar o tempo e a querer dias com mais de 24 horas, pois é nesta fase que tudo acontece, é tudo novo, um mundo a explorar, a florescer… Por volta dos 30, ou algures no início da parentalidade, a coisa muda de figura, e percebemos que ainda temos tempo pela frente, mas não todo. Aos 40, e com a sua ternura, fazemos balanços, e percebemos que estamos a meio de algo na vida. E depois o tempo avança com a perceção que “podemos não ter tempo” para fazer tudo o que queremos da vida. Começamos a perceber a finitude do tempo, as nossas pessoas começam a morrer. Mas sempre na expetativa que os 50 são os novos 40, e por aí em diante. E a partir dos 80 vivemos cada ano como se fosse o último, a dar tudo para que não nos escape nada. Curioso é que em 1970 a esperança média de vida era de 67 anos, e em 2019 é de 81 anos! Valha-nos os progressos sociais e em saúde!
O nosso cérebro também nos prega partidas. Uma coisa é a perceção do tempo quando falamos dele ou do que aconteceu, outra coisa é quando o vivenciamos, “live” como dizem as novas gerações. Já teve essa sensação? E o sentimento que “agora” o tempo é que passa mais rápido, por exemplo nos seus últimos 10 anos?
Mas o tempo é o que nós fazemos dele. E podemos enganar a nossa perceção do tempo, garantindo novas experiências, outras aprendizagens, mesmo em coisas simples. Assim, parece que temos mais tempo ou que o usamos melhor! Vamos criar memórias mais ricas para nós e para as nossas crianças. É o que fica! Porque a vida são dois dias, já diz a sabedoria popular.
E como dizia também o grande Variações: É p’ra amanhã/Bem podias fazer hoje/Porque amanhã/Sei que voltas a adiar/E tu bem sabes /Como o tempo foge/Mas nada fazes/Para o agarrar.
E chego ao fim, desta crónica, leve como o tempo, apropriada ao mês de Agosto, e sem falar no bicho! Bons banhos caros leitores! ■