O 25 de Abril – Outra maneira de o contar às crianças (concebido para ser lido e explicado nas Escolas) – A meus netos

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Corria branda a noite; o Tejo era sereno
a riba silenciosa; a viração subtil;
a Lua, em pleno azul, erguia o rosto ameno;
no Céu, inteira paz; na terra pleno Abril.
Tomás Ribeiro, in Judia

Era um enorme jardim. Flores, claro, imensas; cravos – vermelhos e de outras cores, alguns até raiados; rosas, também variadas e, as mais lindas de todas, para meu gosto – princípe-negro; e outras, muitas outras sardinheiras, alecrim, alfazema, salvas, papoilas, urzes, tojos, margaridas, violetas, amores-perfeitos…
O jardim era tão grande, tão grande que até tinha serras, lagos, era atravessado, em vários sentidos, por rios com muitos peixes e era banhado pelo mar em extensas praias que quase o contornavam.
Era mesmo um “jardim à beira-mar plantado”.
Também havia imensas árvores de fruto: olivais, laranjais, pinhais, soitos (castanheiros), amendoais, figueirais, assim como, de certo modo dispersos, carvalhos, nogueiras, choupos e plátanos. Lindas “alamedas de plátanos”.
No Verão as searas ondulavam com as brisas suaves fazendo lembrar o mar em dias calmos.
Ora, o descuido, a despreocupação, digamos mesmo o desleixo e o acolhimento consentiram que aquela bela natureza se fosse degradando.
Os rios, outrora límpidos, ficaram sujos e malcheirosos – os peixes morreram todos – as matas e os jardins foram sendo invadidos por heras, silvas, grama e outras ervas daninhas…até capim, planta exótica.
Só vos digo que estes jardins estavam de tal modo impenetráveis e mal tratados que se as plantas falassem e as árvores chorassem seria um colossal coro de lamentações.
Até que…até que…há sempre alguém que diz: Basta!
Dinis, disse o Afonso, procura o Vasco, telefona ao Nuno e ao Henrique, chama o João e o Sérgio, há que conversar…
São precisos homens e mulheres de boa vontade que queiram recuperar estes nosso espaço e permitir que o amanhã – nossos filhos e netos – o desfrutem plenamente.
Decidido!
Toda a gente se entusiasmou, todos ao trabalho – bons e maus, feios e bonitos, católicos, protestantes e ateus, brancos, pretos e ciganos – por que não? O jardim não deveria ser de todos e para todos?
Veio a Catarina com a sua foice, o José com a enxada, o Manuel com a tesoura de poda, o Alberto com a foice roçadoira, o Luís com um serrote, a Mafalda com um sacho, o Rui trouxe um ancinho e uma forquilha, o Bruno um podão, o Diogo um carro de mão, a Sofia e a Maria, um tractor, o Rafael uma pá grande e a Isabel, um pequenina, a Rosa uma sachola, o Hélder uma picareta. O Vasco trouxe uma grua enorme para as zonas mais difíceis, o Jorge e o Eduardo trouxeram um dumper.
– Vamps limpar isto, vamos limpar isto tudo…vamos conquistar o futuro, dizia o Militão com uma gadanha na mão.
Ei-los, povo unido, a caminho de uma nova aurora – Veleda (minha companheira de carteira), Agostinho, Maia, Ana, Bernardo, Raul, Cristina, Tomás, Paula, Vanda, Frederico, Fabião, Vítor, Otelo, Norton, Carolina, Ângelo, Flausino e Cláudio, Sócrates, Humberto, Gedeão, Mário, Álvaro, Alcina, Natália, Rosalina, Viriato, enfim vieram todos, todos não, quase todos. Embora atrasado, veio a correr o Gil, super suado e afogueado, dizendo:
– Eu sou o futuro, eu também quero trabalhar!
– Mãos à obra, mãos à obra.
Coragem e força minha gente, não é a primeira vez que estes trabalhos são feitos. Atrás de quem suja tem sempre de vir alguém que limpe.
Os mais confiantes e optimistas ainda os trabalhos estavam a começar e já anteviam os filhos e netos a nadar nos rios, a jogar à bola, ao pião e à bilharda, a escorregar nos escorregas, a fazer rodas contando, gozando os jardins, plenamente.
Os trabalhos foram árduos e morosos, mas…finalmente…missão cumprida!
Aquela Primavera – tempo de renovo – aquele Abril fora o mais lindo das nossas vidas.
Rebentaram festas populares, por tudo quando era sítio. Era a adiafa. O máximo meninos. O máximo meninos! Tudo era numa nice!
Um fungagá colossal, alegria a jorros. Toda a gente brincou, dançou, se divertiu à grande e à francesa. Foguetes estralejavam e ribombavam continuamente. Imaginem um colossal circo a derramar uma alegria também colossal..
Gigantones, cabeçudos, palhaços, zés-pereiras com os seus bombos, bandas de música tocando nos coretos e nas ruas, bailes em todos os cantos. Um charivari apoteótico.
Uma parodia total, uma verdadeira parodia. Resplandecentes fogos de artificio entonteciam-nos naquelas noites escuras, assim se festejando o final da escura noite.
Bem, o quintal está limpo, evite-se, agora, novas poluições, pois não pode haver saúde fora da natureza, uma natureza ecologicamente pura, bem entendido. Vamos instalar muitas estações de tratamento de lixos e esgotos e evitemos o desenvolvimento do escalracho e outras plantas malsãs.
Gritemos a plenos pulmões: poluição, nunca mais! Poluição, nunca mais! Poluição nunca mais!
Que acham?
Temos ou não o dever de tratar dos jardins?
Temos ou não o direito de tratar dos jardins?

Jaime Rodrigues