O Imaginário Caldense: Pavilhões do Parque D. Carlos I

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Guilherme José
Livreiro “Malfeitor”

As ruínas dos pavilhões do Parque D. Carlos I são um testemunho vivo, tão marcante que já ultrapassaram o mero registo etnográfico. Atualmente, estão impressas na sensibilidade urbana e no imaginário das gerações mais recentes, que pouco conhecem dos edifícios além da sua degradação face à temporalidade tão rápida e descontínua da própria vida.
É incrível como uma estrutura minuciosamente arquitetada por Rodrigo Berquó, com clara influência francesa, especialmente nos recortes das cantarias e nos cunhais ao belo estilo Luís XIII, semelhantes, por exemplo, aos do Palácio do Duque de Loulé, esteja hoje em estado de abandono. Mais do que isso, esse próprio abandono parece transmitir uma certa aura, à semelhança de um genius loci, um espírito do lugar que cativa todo o tipo de sensibilidades, estrangeiras e locais, que se deslocam até lá para capturar a fotografia habitual e tão descritiva da nossa cidade nas redes sociais.
Estes pavilhões cumprem precisamente as forças do lugar sobre as quais foram edificados; a sua forma não é apenas um reflexo de meras conjunções de fatores externos, mas sim a realização material da imagem suprassensível das nossas águas termais. Algo que, a meu ver, a arquitetura moderna já não consegue acompanhar devido ao seu progressismo mecanicista, que, maioritariamente, obedece a uma certa homogeneização dos espaços, resultando numa padronização unitária.
Seja qual for o projeto de futuro ao qual os pavilhões se destinem, algo que tem sido palco de múltiplas especulações e teorias, é fundamental manter o respeito por um dos mais belos monumentos da cidade e um fenómeno que constitui o imaginário caldense. A sua recuperação e reactualização não devem ser apenas uma novidade, mas sim um revivalismo que evoca a sua memória e história enquanto referência cultural. Deve-se garantir que a recuperação dos edifícios seja útil e que atenda às expetativas da comunidade enquanto cidadãos.
Por um lado, devemos manter a tradição e a herança que nos foi deixada, tratando-as como o legado identitário da nossa cidade que merecem ser preservados. Por outro lado, somos desafiados à capacidade de mudança e inovação, garantindo que o mesmo legado não seja descaracterizado por completo. Caso contrário, correríamos o risco, tristemente, de cair em uma condição que opto por chamar de cegueira espiritual, algo que só deve merecer o nosso repugno. ■