O que se passa com as toalhas?

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Gazeta das Caldas

Cada localidade tem os seus fenómenos. Nas terras do Entroncamento, por exemplo, há leguminosas que brotam gigantescas. Já as águas de Caldas da Rainha possuem estranhas capacidades tonificantes. Desconheço a origem do fenómeno, porventura relacionado com águas sulfurosas ou bactérias antitermais. Certo é que venho sendo frequentemente atacado pelo fenómeno depois do banho matinal. Comecei por me interrogar sobre o que poderia estar a passar-se com as toalhas de banho cá de casa. Adquiro-as alvas, em conjuntos imaculados, aos melhores fornecedores. Preferencialmente turcas, suaves, macias. Invariavelmente brancas. Não me agradam toalhas de banho coloridas, deixam-me suspeitas acerca da limpeza corporal. O branco não engana. Sucede que por vezes, mais do que as desejáveis, acabo de tomar banho, limpo-me à toalha e verifico que esta adquiriu um grão estranho, acastanhado, cor de barro. A maciez do turco logo se transforma em rugosidade, típica de um esfoliante que não estava no programa. Há cores que arranham na pele. Esta, cuja origem desconheço, é uma dessas cores. Arranha, irrita, leva-nos a paciência em vez de nos lavar o corpo.
Confesso que cheguei a temer pela minha saúde quando dei pelo fenómeno. Questionei-me acerca do que poderia estar a passar-se com o meu corpo. Talvez o problema estivesse relacionado com a minha pele. Uma palidez congénita poderia estar a agravar-se, perdendo eu para o turco das toalhas o que me restava de pigmentação. Eu, que já tão pouca cor ostento, mal me exponho ao sol fico assado. Ligeira hipocondria levou-me a supor que pudesse estar enfermo, doença indetectável nas análises regulares, nas radiografias, nas ecografias, nos electrocardiogramas, nas biopsias, no toque rectal. Não me sinto mal, apenas ligeiramente enjoado do mundo. Não me tenho sentido pior do que há muito me vou sentindo, ando como na canção do Sérgio Godinho: com a cabeça entre as orelhas.
Fosse eu adepto de praia, poderia o grão acastanhado das minhas toalhas dever-se ao bronze. Mas nada disso, nada de esturrar de papo para o ar onde o sol espreita. Prefiro esplanadas, refúgios à sombra, céus sombrios, o sossego das temperaturas amenas. Precisamente o que me convenceu a fixar-me em Caldas da Rainha. Pelo menos até ver. Tatuagens não tenho, nem sequer de henna. Calquitos são vaga memória da infância. Andasse eu metido nessas aventuras da vaidade humana, poderia estar explicada a súbita e inusitada coloração das minhas toalhas de banho. Mas não. Nem doenças de pele detectadas, nem tatuagens. Nada.
Ocorreu-me a possibilidade de por detrás deste fenómeno estar uma campanha de marketing. Talvez a alvura das minhas toalhas seja vítima de uma subtil campanha que pretende bronzear através da água os banhistas que nos visitam por esta altura. Com águas cor de barro, bronzeiam-se banheiras, corpos, toalhas, poupa-se nos solários e previnem-se carcinomas, brinda-se o turista de Verão. Eis uma forma inteligente de disfarçar a escassez de sol. Disseminando barro pelas águas públicas, garantem-se propriedades bronzeadoras a preço de amigo. E ninguém se queixa de microclimas nem de mau tempo. Não estaria mal pensado, não fosse dar-se o caso de as minhas toalhas sofrerem com este problema. É um dó vê-las manchadas como que de sujidade assim que as passo pelo corpo depois do banho tomado.
Espreitei o recibo da água em busca de uma alinha sobre bronzeadores aquíferos. Entre as mais de 20 alinhas relativas a tarifas não encontrei nada que denuncie esta nova modalidade de bronzeamento. Talvez seja uma oferta do município. Lamento não poder agradecê-la. Prefiro as minhas toalhas de banho brancas, isto é, limpas.

Henrique Fialho
fialho.henrique@gmail.com