O tempo não significa nada

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historiadora de arte e museóloga

O olhar do outro, facultado pela literatura de viagens de estrangeiros, instiga a minha curiosidade. Não por um saudosismo bucólico, mas sobretudo porque me intriga e me faz verificar como há tendências que persistem ao longo dos tempos.
No verão de 1947, Susan Lowndes (casada com um jornalista inglês, a residir em Portugal desde 1939) e Anne Bridge (pseudónimo de Mary O’Malley, mulher do embaixador britânico em Lisboa), deram a volta a Portugal, num carro que alugaram com motorista. Da viagem, resultou um guia, intitulado “The Selective Traveller in Portugal”, publicado em 1949. No clima de paz do pós-guerra, que assistiu ao exponencial crescimento do turismo, a publicação teve um sucesso imediato. Conheceu várias reedições, mas só foi publicado em Portugal, e em português, em 2008, com o título “Duas inglesas em Portugal. Uma viagem pelo país nos anos 40”.
Podemos imaginar como terá sido a viagem destas duas mulheres, estrangeiras, que mal falavam português, visitando os lugares mais recônditos de um país conservador sob ditadura, onde a rede viária era diminuta e em que “a posição legal das mulheres era inferior”, resumindo-se estas a serem “boas mães” e “donas de casa competentes”, como referem as autoras. Deslumbraram-se com o Portugal rural, com a “agricultura fascinante e estranhamente bíblica”, que comparavam à “Inglaterra ainda agradável” do século XVII e início do século XVIII.
Em relação às Caldas da Rainha, “uma cidade que durante a Segunda Guerra Mundial se tornou a «résidence forcé» de um grande número de refugiados”, citam os hotéis da famosa estância termal, mas descrevem como único interesse arquitetónico o “edifício encantador” da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Pópulo. Na sua afetação britânica, não foram muito seduzidas pela cerâmica caldense; avisam que a cidade é conhecida pelas grandes fábricas de cerâmica, que “alguma da cerâmica é fabricada em forma de folhas, frutos e animais, mas infelizmente as cores são muito grosseiras”.
No início do roteiro, observam que os portugueses não são dados a grandes exibições de energia (a não ser os camponeses) e não têm “absolutamente nenhuma noção anglo-saxónica de fazer as coisas a tempo e horas. O tempo não significa nada”. Porém, digo eu, o tempo para quem viaja é mesmo o que menos importa!
Depois de visitarem as Caldas e Alcobaça, chegaram à Nazaré, que aclamaram como “um dos locais mais fascinantes da Europa, não tanto pelos pormenores arquitetónicos mas pelos seus habitantes”. Descreveram o colorido do traje e dos barcos e a faina piscatória desenrolada no areal, e deixaram-se ficar diante da praia, onde “toda a cena proporciona uma estranha sensação de paz e dignidade, uma espécie de autocontenção serena” que as autoras identificaram com a frase de Alexander Pope: “Esquecendo o mundo e sendo por ele esquecida”.
A sedução da viagem está nesta possibilidade de suspensão temporária do quotidiano. Neste Verão, em que estamos tão ávidos pela recuperação do turismo, anseio sobretudo por estas oportunidades de viagem, onde o nosso relógio deixa de marcar horas e o nosso “mundo” se transforma no encontro com o outro e na felicidade de serenamente “contemplar”. ■