Oeste e inovação

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                          Miguel Silvestre

Se chega atrasado não é inovação. A economia e a consultoria gostam destes chavões. Focam-nos na solução, mas não quer dizer que nos contextualizem no problema. O quadro é sempre mais complexo, quando queremos compreender e intervir para o alterar de forma profunda. Como todas as regiões do país, o Oeste tem focos de inovação, mas padecemos do problema do país, com a aposta em tendências. São ou serão importantes, mas têm pouca presença no terreno. Há algum esquecimento do tecido empresarial que gera emprego e dinamismo local. As estratégias de especialização inteligente visavam combater este paradigma, mas só o acentuaram ainda mais. Recordo-me de uma reunião em Coimbra, sobre a estratégia para a região Centro, onde a perspetiva de faturação, até 2030, para uma das apostas, o turismo de saúde, era a mesma que a faturação de uma empresa metalomecânica de um empresário que estava no grupo. Disse então o senhor, com fleuma, que provavelmente não fazia muito sentido a presença dele na dita reunião para não estragar a narrativa!
Para espoletar a inovação falta acima de tudo consistência. Portugal tem 99,9% de pequenas e médias empresas (menos de 250 trabalhadores). 96% são microempresas (menos de 10 trabalhadores e/ou volume de negócios inferior a 2 milhões). Com esta realidade temos necessidade de políticas públicas mais ousadas, que libertem pequenos negócios, do comércio ao turismo ou indústria, a pensar diferente e a gerar processos que libertem a inovação e que a tragam para dentro da cultura da empresa. Focando apenas no papel dos municípios, várias medidas têm sido tentadas: planos municipais de inovação, vouchers de inovação e agora, até um serviço municipal de inovação desenvolvido por uma empresa do Parque Tecnológico de Óbidos com um município da Beira Baixa. De facto, só um município pode dar a integração de políticas que a inovação carece: residência, educação e formação profissional, acolhimento empresarial, projeção externa de marcas e território, atração de entidades do sistema científico nacional, rotação de talento e projetos que desafiem a imaginação da comunidade. Ao Oeste talvez falte mais desassossego. Procuramos demasiadas vezes as razões da inatividade e menos a inspiração da busca. Para quem, como eu, vê nascer aqui, ideias e projetos, para irem acontecer a outro lado, é algo que tem tanto de intrigante como de desafiante. A frase atribuída a Nietzsche é reveladora: “Logo que, numa inovação, nos mostram alguma coisa de antigo, ficamos sossegados”. É este limbo onde creio que nos encontramos. ■