De Palavra em Riste | Adeus, até mais ver!

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Gazeta das Caldas

E pronto. Não há bem que não acabe, nem mal que sempre dure.
Chega ao fim esta rubrica nas páginas da Gazeta das Caldas, a quem agradeço, reconhecido, o convite que me foi dirigido, agradecimento obviamente extensível a todos os companheiros que aqui colaboraram – Paula Carvalho, José Rafael Nascimento, Jaime Neto, Jorge Varela, Lino Romão, Rui Gonçalves – pelo estímulo que representavam os seus textos, bem como a todos que tiveram a disponibilidade de nos ir lendo.
Desde Março de 2015 foram aviadas, nesta coluna, quatro dúzias de crónicas bem medidas nos 3500 caracteres (com espaços) disponíveis, limite quase sempre ultrapassado no gozo de uma margem de tolerância à volta dos 5%. Não obstante, este desafio obrigou a um esforço e disciplina de concisão na escolha e elaboração dos temas, a fim de obter uma desejável e indispensável clareza. E daí a angústia, não a do guarda-redes antes do penalti, nem a do pintor face à tela vazia, ou a do escritor perante a página em branco, mas sim a deste vosso escriba com o teclado e a pantalha do computador diante de si, exigentes e impositivos, ameaçando-me mudamente pelo meu silêncio, que deveria ser rompido a tempo e a horas; e em quantas ocasiões não foi, para desespero do Carlos Cipriano com quem, pela pachorra demonstrada, tenho uma dívida de gratidão a ser saldada imperialmente (entenda-se: com muitas imperiais!…). É pois, com um certo, mas indisfarçável, alívio, admito, que cesso estas funções de escrevinhador. Foi-nos, de início, solicitado uma reflexão crítica sobre a cidade e o concelho de Caldas da Rainha, plasmada num escrito a surgir de três em três semanas. Eu pecador me confesso, ter-me-ia sentido mais à vontade se a coisa se desse num registo de escárnio e mal-dizer, tão de viés encarado pelos grandes ou pequenos detentores do Poder. Mas pedidos são pedidos e, se aceites, devem ser respeitados. Assim, os principais assuntos abordados ao longo deste tempo, integram a lista dos problemas estruturais com que Caldas se vem debatendo e para os quais, desgraçadamente, não se vislumbra qualquer solução no horizonte mais próximo: O caos instalado no Hospital Distrital; o termalismo e o Hospital Termal (e não, Dr. Santana Lopes, a situação não se resolve com nenhuma Parceria Público Privada – t’arrenego!); a redução considerável da identitária indústria cerâmica, o desprezo pela Lagoa de Óbidos; a Linha do Oeste que não anda, só atrasa; a degradação do tecido urbano, de sobremaneira agravada por um Plano de Pormenor do Centro Histórico e uma revisão do PDM que nunca mais acontecem…

A gravidade destes casos que comprometem o Futuro reclama o envolvimento de todos. O executivo municipal diz querer a participação da Oposição, desde que seja «construtiva» (como se ela fosse destrutiva…), mas, apesar disso, alcandorado no reforço da sua maioria, já deu sinais dos por demais conhecidos tiques da postura de «posso, quero e mando».
Para os que agora virão ocupar esta tribuna e de quem serei atento leitor, fica um voto de boa sorte e tudo de bom.
E perante o estado calamitoso em que se encontra muita da Comunicação Social, com um jornalismo servil e estipendiado ao serviço de interesses nem sempre claros (pelo contrário!), foi um enorme prazer contribuir, durante quase três anos, com «a palavra em riste» na Gazeta das Caldas e é, sem dúvida, um consolo que este jornal possa continuar a afirmar-se como uma voz atenta e independente, contrariando assim, numa prática regular, aquilo que o sr. Fernando Pessoa, que às vezes era Álvaro de Campos, um dia escreveu:
«Ora porra!
Então a imprensa portuguesa é
Que é a imprensa portuguesa?
Então é esta merda que temos
Que beber com os olhos?
Filhos da puta! Não, que nem
Há puta que os parisse».