De Palavra em Riste | As enfermidades da saúde

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Gazeta das Caldas

Não há quem não saiba: a Saúde anda doente, de ruim aspecto, enfermiça de males antigos, infectada, com tumores e feridas que não saram, a custo se sustenta de tão débil, tente-não-caia de pés para a cova, males padecidos por via do seu tutor, o ministério, que, frio e implacável, de há muito lhe vem causando uma anemia profunda e agravada por um regime severo de carências e restrições. Ao diagnóstico, diz ele, não há volta a dar: não há dinheiro! Mas depois, usa e aluga a pobre coitada para encher os bolsos aos amigalhaços em negócios duvidosos – parcerias público-privadas lhe chamam, mais conhecidas pela sigla PPP’s.
É assim e pronto, essa suposta inevitabilidade, tornada mistificação do real, que nos tem sido lançada à cara pelo interminável cortejo de (ir)responsáveis políticos, replicada para desgraça nossa que nos coube em sorte, pelas posições do ex-administrador hospitalar, o Dr. Sá, assaz assanhadas na sua sanha de desmantelar e acabar com valências e serviços, cujas consequências perduram.

A contaminação causada pela bactéria legionella foi um dos pretextos utilizados para encerrar o Hospital Termal, o qual, nunca será de mais repetir, era o mais antigo do mundo, em funcionamento ininterrupto. Todavia, os trágicos acontecimentos com um saldo de vítimas mortais no Hospital São Francisco Xavier, em Lisboa, vieram demonstrar, se para tal houver vontade e determinação, será possível superar um problema de grande gravidade sem recorrer ao fecho de instalações. E, já agora pergunta-se: para quando a tão prometida reabertura do Hospital Termal? (Hospital, sim senhores, convirá nunca esquecer a sua condição primordial).
Por falar em promessas, não cumpridas como é costume, as obras de ampliação das Urgências no Hospital Distrital, foram mais uma vez adiadas, «sine die», para variar. Tendo em conta o processo tortuoso verificado, a conclusão desconsolada a que se chega é a de que todos estes recorrentes protelamentos eram, desde o início, previsíveis, até mesmo para os menos cépticos, o que não absolve, de forma nenhuma, o desaforo e a desvergonha dos decisores.
A situação nas Urgências é absolutamente caótica, afectada pelos perigos de contágio com bactérias hospitalares resistentes e, com a chegada do Inverno, aproximando-se um pico intenso de atendimentos, gera-se uma enorme apreensão com o nível de resposta, dado que é impossível menorizar a circunstância inquietante, pese embora aa competências e o esforço de médicos, enfermeiros e técnicos auxiliares, todos, aliás, enfrentando condições profissionais insatisfatórias. Se a esta gravosa conjuntura se acrescentar a instalação provisória/definitiva, há mais de vinte anos, da farmácia e outros serviços em contentores alugados por alto preço, cuja incidência orçamental, em conjunto com o saldo negativo de gestão, as dívidas da tutela, cortes e subfinanciamento crónico, tudo reunido, acaba-se por reduzir ainda mais a disponibilidade para agir imprescindivelmente em áreas prioritárias. A necessidade de um novo Hospital, bem equipado e com centralidade no território da região Oeste é incontornável. O actual responsável pela pasta da Saúde já o reconheceu, porém, as escusas logo surgem e são as de sempre. Projectar e construir de raiz instalações hospitalares demora cerca de uma década. Tenhamos pois a noção aguda de que, tal como as coisas estão, se poderá chegar a 2030 ainda sem a presença do desejado hospital e isto é não apenas intolerável mas sobretudo insuportável para os utentes e para as populações. Há que lutar para que o Poder Central ganhe consciência e satisfaça esta necessária aspiração. Aplicasse ele neste sector metade do dinheiro de todos nós, que derramou, a fundo perdido, na Banca privada e uma boa parte da solução estaria encontrada.