Perdão e Esquecimento

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Isabel Xavier
professora

Num breve texto intitulado “Lenda”, que integra o livro Elogio da Sombra, Jorge Luís Borges narra o encontro póstumo entre Caim e Abel. O encontro dá-se no deserto. Os dois irmãos caminham em silêncio, lado a lado, enquanto “no céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome”. Por fim, os dois sentam-se e “à luz das chamas, Caim reparou na marca de pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime. Abel respondeu:
– Tu mataste-me ou fui eu que te matei? Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
– Agora sei que na verdade me perdoaste – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
– É verdade. Enquanto dura o remorso dura a culpa.”
Sempre me impressionou o facto de haver quem, a propósito de alguém que a prejudicou ou a traíu, diga que “perdoa, mas não esquece”. A história acima prova exatamente o contrário: que só o esquecimento pode originar o perdão. Aliás, é o mesmo autor, Jorge Luís Borges, quem diz que o esquecimento é a forma mais apurada da memória.
Se não fosse a capacidade de perdoar, eu não existia. Na verdade, sem perdão nenhum de nós existiria. A vida nasce do perdão. Perdoar não é fácil, pressupõe uma depuração da alma, um desprendimento dos sentimentos próprios, como quem descarrega um fardo, como quem abandona os despojos do dia num lugar onde sabe que não vai voltar.
Lembro-me de uma aluna, cuja mãe era médica psiquiatra, me contar o caso de uma das suas pacientes, que vivia numa aldeia próxima das Caldas, e lhe expunha nas consultas uma situação que vivia diariamente e que muito a incomodava: uma vizinha, ou talvez fosse uma cunhada, com quem estava desavinda, teimava em passar à frente da sua porta, para trás e para a frente, numa atitude considerada provocatória pela visada e que, certamente, também o era por quem a protagonizava.
A médica, que compreendia bem a situação descrita pela paciente, ao contrário do que esta julgava, insistia para que ela em vez de se fixar nessa atitude provocatória, se questionasse a si mesma por que razão isso tanto a afetava. Ao que a doente respondia: “Mas como? Se é ela que se pavoneia à minha porta, se é ela que passa para lá e para cá? Se é ela quem insiste nesse comportamento?” Por mais que a médica a aconselhasse a refletir sobre a realidade, para a qual também ela contribuía com a sua teimosia em comparececer à janela todos os dias, e em reagir sempre do mesmo modo ressentido, nunca conseguiu alterar a atitude da sua paciente, nem sequer convencê-la dessa possibilidade. A verdade é que se estabelecera uma dinâmica entre ela e a cunhada, que a ambas prendia, e que nenhuma delas desejava, no íntimo, largar.
E isso leva a uma última hipótese, apenas uma hipótese, que me parece depreender-se deste caso: é que o perdão decorre da inteligência e que é preciso uma “morte” do orgulho, como aquela que descreve Jorge Luís Borges no seu texto, para haver a libertação que só o esquecimento e o perdão proporcionam. ■