Tudo começou em 2003 após a negociação do terreno da família Egrejas para ampliar o complexo desportivo e fazer daquela zona uma nova centralidade. Ficou a faltar o terreno confinante da família Virella que esteve anos à venda. Como queriam vender vieram a meu convite à Câmara e pediram 53.000 contos, pois queriam 10 contos/m2 (o terreno tinha 5300m2). Como não sou especialista imobiliário, pedi a avaliação oficial que tínhamos do terreno ao lado e a avaliação deu 39.000 contos. Acabámos por “rachar” ao meio os 14.000 contos de diferença e em troca pagaríamos durante um ano. O valor final ficou em 46.000 contos 230.000 euros). A escritura só foi feita em 2004 sem qualquer contestação junto dos funcionários municipais que preparam a escritura.
O problema só começou um ano e meio depois do acordo, em 2005, já em campanha eleitoral, pois o município havia deliberado na Câmara e na Assembleia por unanimidade vender um lote em hasta pública, por 1.250.000 euros. Esse valor foi decidido depois do promotor do Pingo Doce ter revelado o que queria investir e com essa informação organizámos a hasta pública, para, legalmente, dar a possibilidade a outros eventuais interessados. Mais tarde, os proprietários fizeram contra mim queixas muito graves e muito, mas muito violentas, como a que dirigiram ao Ministério Publico, de participação económica em negócio, concussão, burla qualificada e fraude fiscal. Poucos sabem que quiseram a troco de mais dinheiro por um terreno estragar-me a vida, mas não cedi e interpretei isto como uma pressão dura para nos obrigar a pagar mais, pois colocaram uma acção cível a pedir uma indemnização. Valeria a pena tornar público o despacho de arquivamento do MP, bem esclarecedor quanto à conduta impecável da autarquia!
Chegaram a alegar que na altura da negociação para a compra do terreno, no final de 2003, já havia um pré-acordo com o Pingo Doce (um ano e meio antes!); que tinham tido muitas propostas de valor mais alto, sem no entanto identificarem ninguém; e que eu os tinha ameaçado com uma expropriação (que não fiz mas não seria ilegal). Estas teses tiveram os seus aliados naqueles que sempre pressionaram para darmos mais dinheiro aos Virella. Com base em quê? Para os fazer desistir da indemnização? Sempre achámos legítimo o que todos aprovámos e fizémos e sempre dissémos que se fosse para dar mais dinheiro teria que ser um tribunal a ordená-lo. Outro passo seria favorecimento particular, esse sim um crime! A vitimização dos Virella ganhou terreno pela enorme diferença de valor e foi fácil diabolizar a Câmara. Mas o que podíamos fazer? Pedir menos dinheiro na venda tanto tempo depois, só para proteger a nossa imagem? Ceder a um grupo económico que podia pagar e teve tanto sucesso que já tem hoje outro concorrente em frente? E o interesse público? Vimos legitimidade em tudo e o dinheiro foi para financiar obras públicas enquanto resolvemos um problema da nossa população que em 2005 era a única do país que nem um supermercado tinha na sede do concelho!!
Pois bem, a família Virella poderá vir a receber como pagamento alguns lotes, dos muitos que conseguimos para o município, mesmo assim com um valor muito abaixo do que reclamou. Acho que a autarquia devia continuar a lutar, pois daqui para frente qualquer escritura livremente realizada onde venha no futuro a existir uma mais-valia significativa, mesmo que seja muito tempo depois, poderá ter que a vir dividir com o anterior proprietário. É uma verdadeira caixa de pandora!