Praças e mercados

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1968 ficou conhecido como o ano que nunca acabou. Foi de tal maneira forte o efeito das promessas de mudança, de uma sociedade nova que queria nascer, no imaginário da esquerda contemporânea que marcou a forma como os progressistas passaram a ver o mundo. Alguns estudiosos afirmam mesmo que sem Maio de 68 nunca teria existido Abril de 74. Há momentos que são mesmo assim, de tal maneira fortes, que parecem eternizar-se na memória do mundo.
Se para a esquerda Maio de 68 e Abril de 74 têm esse poder imagético como promessas de uma utopia possível a construir, já para a direita o PREC parece ser um fantasma persistente que teima assombrar a normalidade. Uma normalidade em que os escolhidos – eles próprios – foram ungidos para herdarem o poder em nome de uma qualquer ordem cósmica. Mas esse maldito PREC ameaça constantemente voltar e por em causa essa ordem natural do mundo. É claro que esse PREC fantasmagórico, omnipresente, e ameaçador que a direita portuguesa continua a agitar no seu discurso político é algo que só existe no seu próprio imaginário. Na sua linguagem do desespero, numa postura ressabiada, numa estratégia delirante e sem qualquer adesão à realidade, que continua a insistir na ilegitimidade do novo governo que já ninguém escuta por mais de dois segundos.
A esquerda contemporânea acompanhou a mudança do mundo e tentou mudar também, actualizando a sua visão, adaptando os seus valores, renovando os seus princípios. A direita que quer à força identificar a nova realidade da esquerda com um período em que só vê o caos, o despesismo, a barafunda, a ingovernabilidade, engana-se na história e não reconhece o adversário. Engana-se, desde logo, pela parcialidade com que olha para o passado tentando amputar esse período (mal estudado, diga-se), das virtudes e coisas boas que também teve. Lida mal, por exemplo, com essa exuberância de liberdade, que se convertia todos os dias e pelo país fora em projectos colectivos, em actos de genuína solidariedade (a caridade não era para aqui chamada nem fazia falta nenhuma), na resolução de problemas individuais e colectivos pelas comunidades, pelo debate, pela discussão, pela política na rua, pela acção directa, horror dos horrores… Uma sociedade que fervilhava de optimismo e onde os índices criminais, de roubo, violência, agressividade, etc., são historicamente baixos. Uma sociedade que num ano e meio integrou quase um milhão de pessoas vindas das ex-colónias, um aumento de cerca de 10% da população, de forma pacífica e sem grandes convulsões. Tudo coisas que uma certa direita prefere ignorar quando agita as bandeiras da instabilidade.
A direita engana-se também no reconhecimento do adversário. A esquerda já não é essa esquerda coreográfica ou panfletária. Sem perder algum voluntarismo e eventualmente com os olhos em novas utopias, a esquerda actual preocupa-se sobretudo com os valores da sustentabilidade. Do planeta, desde logo, mas também das sociedades, e a um nível mais micro das comunidades. A esquerda não quer acabar com o mercado, mas não abdica de o querer regular. Não se quer render aos mercados, quer disciplina-los. Preocupa-se com a criação de emprego, aceita a iniciativa privada, mas não tem preconceitos com a empregabilidade pública, necessária a uma sociedade equilibrada.
Uma esquerda preocupada com o emprego, aberta ao investimento. Público e privado. Neste novo ciclo há que recuperar a reivindicação do novo hospital para as Caldas da Rainha, que sirva a região. Há que tentar perceber também como viabilizar um hotel junto ao CCC, que finalmente viabilize a vertente de congressos deste importante equipamento cultural e que resolva a chaga imobiliária que ali ameaça perpetuar-se. Como se dizia em Maio de 68: “Sejamos razoáveis, exijamos o impossível”. Ou sejamos radicais a pensar, para podermos ser moderados a agir.
Lino Romão
linoromao2.0@gmail.com