Quem paga amendoins…

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Cristina Soares
Consultora de Comunicação de Ciência

Aqui há uns dias passou-me pelos olhos um anúncio para um lugar de coordenador de comunicação de ciência. A lista de tarefas era enorme e a lista de competências exigidas correspondia a alguém já com vários anos de experiência e com a capacidade para ser um canivete suíço. Entre essa lista enorme de competências, exigiam a cada vez mais “tradicional” capacidade de autonomia, que em linguagem empresarial significa, mais coisa, menos coisa, “pessoa com capacidade para se desenrascar sozinha porque por aqui não temos capacidade de gestão”. Para além disso ainda alvitravam a possibilidade do candidato ser doutorado.
Para tal cargo ofereciam, diziam eles, entre 1200 a 1500 euros brutos. Repito, brutos, pois sobre este ordenado, ainda há uma carga de impostos enorme.
A carga fiscal estupidamente grande que cai sobre os salários portugueses é efectivamente um problema para as empresas e trabalhadores – peço desculpa pelo uso pouco moderno do termo “trabalhadores”, mas para mim as pessoas trabalham, não colaboram. Mas aqui está em causa outro problema. Aqui está em causa propor-se um salário bruto inferior a dois ordenados mínimos para um cargo como este. Ou seja, alguém, algures, num lugar de gestão e decisão, alguém acha que este pagamento, bruto, é algo justo de se propor para um lugar destes. Ou seja, aqui está em causa a (des)valorização do trabalho.
Há uns dias também, saiu no Expresso a notícia de que 30% dos jovens portugueses estão a trabalhar no estrageiro. Provavelmente a ganharem 3, 4, 5 vezes mais do que ganhariam cá (e a pagar casas ao preço das de cá). O país deixa escapar, como água por entre os dedos, a tal “geração mais qualificada de sempre” e, para variar, ou não fossemos nós portugueses, aponta o dedo aos sucessivos governos, sejam eles de que “cor” forem. Em Portugal, já se sabe, a culpa é sempre do governo. Dado que as pessoas, os indivíduos (ah, esperem, acho que se chamam cidadãos), são incapazes de mudar seja o que for, por si só. Não são os governos que estabelecem o valor do trabalho alheio. Somos todos nós. Todos nós. Seja os que propõem salários deste valor para um lugar de responsabilidade. Seja os que acham isto “normal”.
Não, os jovens não estão a sair só por causa dos impostos (que são altos) nem só por causa dos sucessivos governos (que são maus). Os jovens estão (também) a sair porque as suas qualificações não são valorizadas. Os jovens estão a sair porque se estabeleceu que é normal pagar amendoins, de preferência amendoins financiados pelo IEFP.
Mas sabem o que é que vai acabar por acontecer a quem insiste pagar amendoins, não sabem? ■