Quo Vadis… Caldas? | A Economia da Água

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Gonçalves

Os recursos endógenos de um território, são o que os torna distintos e é neles que se deve alicerçar o seu desenvolvimento sustentável. Copiar ou inventar modelos, de uns para outros territórios, podem dar a sensação de sucesso, mas será sempre efémero. Trabalhar e potenciar os recursos com que a natureza nos presenteou, é o único método para alcançar a sustentabilidade futura.
Pensar o território, significa exatamente perceber quais os recursos que “naturalmente” estão ao nosso alcance e encará-los como os nossos bens patrimoniais de excelência.
Nós temos mar, que nos serve, sensivelmente um mês e meio por ano, como potenciador do produto turístico “sol e mar”, que em nada nos distingue de muitas outras praias. Mas é o que nos pode dar.

Temos também a Lagoa, um ecossistema sensível, ainda poluído e mais assoreado do que nunca. Era possível na Lagoa desenvolver o turismo gastronómico, que passa ao lado da região, porque a diversidade e riqueza das espécies ali capturadas, está longe de ser divulgada e rentabilizada, como podia e devia. Mas na lagoa também podia e devia ser potenciado o turismo paisagístico, com percursos pedonais, através de trilhos, que permitissem percorrer e contornar a Lagoa, com o corte permanente dos chamados “caniços” que não permitem observar o espelho de água em toda a plenitude e ainda com passeios de bateira que permitissem observar a paisagem de dentro para fora. Ou o turismo náutico, desenvolvendo as modalidades não motorizadas, como o “kytsurf”, o “windsurf”, o padell, a canoagem e outros, muito longe de alcançarem a dimensão possível, que com pouco investimento e acima de tudo com alguma vontade, seria possível tornar a Lagoa o epicentro daquelas modalidades e através delas, colhermos o melhor do que se pode fazer da prática destas modalidades náuticas. Ainda que dizer dessa vertente turística, em crescendo em todo o mundo, que é a observação de pássaros e que aqui irresponsavelmente ignoramos, apesar de termos todos os ingredientes necessários.
Até temos rio, através do qual, uma vez despoluído e com as margens limpas e percorríveis por uma infraestrutura de baixo impacto, faria a ligação direta da cidade ao mar e mais objetivamente das termas à lagoa, como forma de potenciar umas e outra. É destas simbioses que podemos criar a atração turística que não temos.
Também temos essa coisa fantástica que é a água termal e as termas, em decadência e subaproveitadas durante dezasseis anos e definitivamente encerradas há mais de quatro. O maior desperdício da história da cidade e do concelho, porque ela é a nossa maior riqueza. E a solução que atualmente está a ser “cozinhada”, que alguns aplaudem e em que muito poucos acreditam, pode ser uma forma de arruinar e entreter, mas jamais de resolver. A ver vamos.
Mas temos mais. Até temos barragem. Embora perdendo água por defeitos, desde que foi construída e de ser utilizada na rega de alguns hectares de solo arável, poderia e devia regar incomparavelmente mais, se funcionasse na perfeição e seria uma alavanca para o desenvolvimento da agricultura.
Estamos a falar em… economia da água.
Um desperdício que urge aproveitar em nome do desenvolvimento socioeconómico do concelho de Caldas da Rainha e que é mais que tempo de perceber.
E se é verdade que em algumas situações podemos estar, em certa medida, dependentes do chamado “estado central”, no caso da barragem e do desassoreamento da Lagoa, para as quais é necessária força política que obviamente não temos e que por acaso em nada impede o desenvolvimento das atividades que aqui preconizo, também é verdade que na grande maioria, dependemos apenas e exclusivamente da vontade local, em perceber e desenvolver esta “economia da água” que a natureza nos facultou e que teimamos em desperdiçar.
E para isto são necessários milhões? Não, são necessários tostões e “visões” que escasseiam.
Enquanto isto, as opções são em festas abundantes, onde se desperdiçam os recursos necessários financeiros que são necessários para o desenvolvimento económico.