Resiliência

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Cristina Soares
Consultora de Comunicação de Ciência

No próximo dia 6 de Agosto, terão passado 78 anos desde que a bomba “Little Boy” caiu em Hiroshima. Estima-se que terão morrido entre 90 mil a 166 mil pessoas (que se somam às, pelo menos, 60 mil que terão morrido em Nagazaki).
No entanto, no meio de tal horror, conta-se que seis árvores da espécie Ginkgo biloba sobreviveram à destruição, e às quais voltaram a nascer folhas, sem qualquer deformação, na Primavera seguinte. Esse renascimento milagroso é celebrado pela presença de uma dessas seis árvores, que ainda existe a menos de um quilómetro da zona de impacto. Talvez por isso, essas árvores, as Ginkgo biloba (há quem as conheça por Nogueiras-do-Japão), cujas folhas em forma de leque tomam um tom dourado belíssimo no outono, se tenha tornado num comovente símbolo de resiliência.
Resiliência, em ecologia, significa a capacidade de um ecossistema recuperar depois de sofrer um distúrbio. Essa resiliência é medida em tempo: quanto menos tempo o ecossistema demorar a recuperar, mais resiliente será. Uma folha verde, saudável, sem qualquer deformação, a despontar de um ramo, menos de um ano depois da queda de uma bomba atómica, é sem dúvida um exemplo extraordinário de resiliência. E também de esperança.
Mas o significado de resiliência tem sofrido muito, sendo usada a torto e a direito, mesmo para situações que nada têm de resilientes.
É o caso das empresas.
E, realmente, a menos que os gestores de topo considerem que a actividade empresarial tem semelhanças com a queda de uma bomba atómica, parece-me haver alguma confusão no uso do termo. Pois a tal da resiliência é usada normalmente para adjectivar funcionários, perdão, colaboradores, que aguentam calados, sem fazer grandes ondas. Por exemplo, nesta linha de raciocínio, será resiliente aquele funcionário que, apesar de ter sido contratado para fazer um trabalho de engenharia de ponta, também faz uma perninha na comunicação e ainda dá um jeitinho na organização de eventos. Ou também poderá ser resiliente, aquele funcionário que fica mudo e quieto perante uma permanente má gestão.
Só que não.
A resiliência nada tem a ver com resignação, com comer e calar e muito menos com espinhas curvadas (apesar destas, infelizmente, serem necessárias para sobrevivermos, mas isso é outra conversa). A resiliência é muito maior do que isso.
Uma folha que nasce depois de uma desgraça como Hiroshima é exactamente o contrário de resignação, é um sinal de força, de revolta contra a destruição, um dizer não à contrariedade. É um acreditar que tudo pode recomeçar e para melhor. Talvez a resiliência seja até um grito de esperança.
E os gritos, desculpem lá se contesto algum dogma da gestão empresarial, têm de se ouvir ao longe e a longo prazo. Mesmo que aparentemente em silêncio, tal como o da primeira folha de Gingko biloba na Primavera de 1946. ■