Resistência (4) Armazéns cheios de história

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Jorge Sobral
jurista

Numa sessão pública a que assisti em Alcobaça no “Armazém das Artes”, organizado por um grupo de opositores ao regime ditatorial e com o objetivo de lembrar todos aqueles que se bateram contra tal regime, apercebi-me, ao longo das várias comunicações feitas por democratas, como foram importantes alguns armazéns assim como os seus proprietários.
Como caldense, relembro as reuniões que pretendiam ser clandestinas, no “Armazém dos Freitas”.
Tratava-se de um espaço que sendo de trabalho, naquelas noites de encontro, os participantes, movimentavam-se pela Praça da Fruta, entravam e saiam do Café Central e cautelosamente dirigiam-se para a porta que estava destinada ao encontro. Presentes as principais figuras da oposição local, sempre vigiadas pela polícia política. O objetivo tinha como mote as eleições Legislativas.
Um outro local, o “Armazém das Artes” (hoje), foi noutro tempo um armazém agrícola no centro da cidade de Alcobaça. Dividia parte do espaço com uma oficina, também conhecida como oficina dos “danados”. O que levou o espaço armazém a denominar-se como ”Danado”.
Esta denominação era atribuída por trabalharem ali ativistas de grande coragem e que eram constantemente visitados pela polícia. Quando numa rusga, conta-se, que conseguiram iludir os esbirros, colocando o material subversivo num cesto, deitando-o ao rio Baça, que passava junto ao Armazém. Passaram-se décadas e o espírito de espaço de defesa da democracia, nunca desvaneceu. Hoje o “Armazém das Artes” é herdeiro da liberdade e criação artística.
Outros grandes espaços, transformados em oficinas, foram também locais de luta e conspiração contra o regime opressor, como foi o armazém/oficina de Bento Lourenço da Silva. Figura caldense, respeitada e admirada pela sua qualidade de empreendedor, tendo pago pela sua ousadia com a prisão.
O “Armazém David Pinto”, de tecidos, conhecido como espaço onde se produz ginja, foi também aqui que os opositores de Alcobaça, se reuniam projetando ações de luta, assim como a preparação da campanha eleitoral do General Humberto Delgado. A profunda ligação do General Humberto Delgado à Freguesia da Cela no concelho de Alcobaça, inspirou a população desta Freguesia, que ainda hoje não deixa de lembrar esta grande figura nacional, tendo ali sido erigido um monumento, da autoria do Escultor José Aurélio.
Sem ter a pretensão de lembrar tudo e todos, recordo outra figura caldense, Adérito Amora, proprietário de armazém agrícola e de vinhos, herdeiro de outra figura de grande opositor, seu Pai. Ali, onde havia sempre espaço para a conspiração contra o regime ditatorial. ■