Revisitar o passado ou o passado em nós

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Isabel Xavier
professora

Muitos autores representam-se a si mesmos nas suas obras de referência. É o que acontece em vários filmes de Alfred Hitchcock e de Manoel de Oliveira, por exemplo. É também o caso de Jorge Luís Borges (JLB), escritor que muito se dedicou a pensar a memória e o modo como ela se processa em nós. No seu conto, “O Outro”, é relatado o encontro de JLB consigo mesmo, mas mais jovem. Tudo se passa numa atmosfera inquietante, na qual o narrador, o mais velho, se espanta com aquela realidade que lhe parecia impossível, enquanto o mais novo teima em considerar que está a viver um sonho. Aí se diz: “Meio século não passa em vão. (…) Éramos demasiado diferentes e demasiado parecidos. Não podíamos enganar-nos, o que torna difícil o diálogo. Cada um dos dois era o arremedo caricato do outro. (…) Aconselhar ou discutir era inútil, porque o seu inevitável destino era aquele que sou.”
Também Rafael Bordalo Pinheiro (RBP) tinha o hábito de se retratar a si mesmo, preferencialmente nas caricaturas em desenho, mas também em algumas peças de cerâmica. De entre as primeiras, destaca-se um desenho em que coloca frente a frente um RBP jovem, emproado, cheio de si mesmo e um RBP alquebrado pelo peso dos anos que, humildemente, enquanto levanta a cartola, gesto que o outro não imita, pede lume a si mesmo enquanto jovem. Nesta caricatura, há uma espécie de jogo de espelhos que é explorado até à exaustão: representação da mesma personagem, desdobrada em duas figuras, no mesmo lugar, mas de tempos distintos, interagindo uma com a outra. Tudo é contraste: cores vivas, luz, dinamismo, arrogância na versão jovem; cores escuras, sombra, humildade e cansaço na versão mais velha. Os gatos que os acompanham participam do contraste, acentuando-o. Está em causa todo um percurso de vida, também representado nos jornais que emergem, amarrotados, dos respetivos bolsos: entre o “António Maria” (1879) e a “Paródia” (1903) é uma vida que se esgota, a sua. Viria a falecer em janeiro de 1905.
Idêntico processo está presente numa moldura em cerâmica, datada do ano anterior (1902), destinada a conter um retrato de família em que o próprio RBP está rodeado da mulher, Elvira, e dos filhos, Maria Helena e Manuel Gustavo. Trata-se de uma peça com decoração palissy, que apresenta do lado esquerdo do observador, em relevo, a figura de RBP jovem, garboso, de pincel em riste, prestes a todos enfrentar, olhando cheio de ânimo o que o futuro lhe reserva, contrastando com o RBP representado do lado direito da moldura, visivelmente envelhecido, dobrado (literalmente) pelo peso dos anos, bastante mais volumoso, com o pincel virado para baixo e os olhos baixos, como quem sai de cena, aparentemente incapaz de afrontar seja quem for.
Voltando à questão inicial, ou seja, ao modo como a memória opera em nós, termino com uma pergunta que já escutei num filme, de que não me lembro o nome e à qual não sei dar resposta: uma recordação é algo que alguém possui, ou algo que alguém perdeu? ■