Apreciar as horas perdidas

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Já aqui afirmei que o gosto pela leitura me acompanha desde a infância. Cresci a procurar o próximo livro entre as prateleiras da biblioteca do meu pai.
O ato de ler tem de ser acompanhado pelo de sublinhar. Qualquer livro. Será uma necessidade de apropriação? Para maior interiorização e auxílio da memória?
Retiro ainda maiores surpresas dos reencontros fortuitos com livros já lidos; quando, ao abri-los, ao acaso, deparo-me com uma resposta ou um repto para as inquietudes.
É o caso do pequeno livro de Raul Brandão, “Se tivesse de recomeçar a vida”. Coincidência ou não, justamente neste início de ano, caiu da prateleira, sobrecarregada da estante lá de casa, junto aos meus pés. Janeiro pede o traçar de novas metas; objetivos que depressa olvidamos na correria dos meses ou que até realizamos se formos determinados no foco.
Brandão reapareceu-me com este pequeno texto, de janeiro de 1918: “Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído. (…) Nunca fui homem de acção e ainda bem para mim: tive mais horas perdidas…”.
Não posso afirmar que nunca me arrependi. Mas, para este ano, tracei como meta (cumprirei?) permitir-me ter mais “horas perdidas”, perder-me diante da eternidade, “não me habituar”, continuar a ver com o espanto da primeira vez coisas tão simples como as árvores. Este objetivo não me catapulta para o futuro nem para a pressão de resoluções. Pelo contrário, faz-me apreciar o presente.
Nestas crónicas mensais, é habitual eu trazer à baila os museus (eles fazem parte de mim!). Não fujo à regra desta vez; assim como os livros, eles dão-nos respostas surpreendentes. Conhecem o Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro? Pensando no Amanhã como uma “construção da qual participamos todos, como pessoas, cidadãos, membros da espécie humana” …já no Presente.
Em Copenhaga, um Museu da Felicidade defende que todos a procuramos, mas frequentemente não somos capazes de ser mais felizes. Partindo desta premissa, o Happiness Research Institute, que pesquisa em torno do bem-estar mental e da qualidade de vida, decidiu criar este museu, onde os visitantes são guiados através da história, da política e da ciência da felicidade.
Se o Amanhã nos estimula a atuar já para deixarmos um legado melhor às gerações futuras, a noção da “Felicidade no presente” é igualmente essencial e entrou também nos museus, normalmente vistos num tempo-passado.
Mais do que uma tendência, o saber apreciar o presente e conectar com o momento é uma urgência, com impacto positivo na saúde e bem-estar (individual e coletivo), competências que temos de aprender a cultivar. Há um ano, Charlotte Coates, escrevia em “Museum Next”, o artigo “What are Mindful Museums and how can they help us with our mental health?”. Dando exemplos ingleses e norte-americanos (como a Manchester Art Gallery e o Institute of Contemporary Art da Universidade da Pensilvânia), provava como, incorporando o “mindfulness” (ou “atenção plena”) na sua programação, os museus ajudam as pessoas a conectarem-se e apreciarem a arte, ao mesmo tempo que contribuem para a melhoria da sua saúde mental, a serem mais calmas e viverem no presente, levando esta prática para o seu dia-a-dia.
Vamos a isso em 2022, reencontrar a calma e a contemplação? Saber encontrar a Felicidade no Presente, parando nas “horas perdidas”. ■