A vida elegante nas Caldas da Rainha

 

“Brasil-Portugal” é o título de uma revista ilustrada publicada entre 1899 e 1914, de saída quinzenal, dirigida por Augusto de Castilho e com sede na Rua do Sacramento, n.º 14, em Lisboa.

Ao folheá-la, no seu exemplar n.º 308, datado 16 de Novembro de 1911, na página 308, deparamos com um artigo que desperta a nossa máxima curiosidade. É um artigo da autoria de Egroj, ou seja um anagrama de Jorge (Almeida Lima), o fotógrafo amador já nosso conhecido.

Vamos então, sorrateiramente, introduzir-nos na vida elegante nas Caldas da Rainha:

“Melle. Bertha Guimarães, Melle. Fortunata Levy, João Queriol
Meus Caros Amigos:
Pedem-me duas linhas sobre as Caldas este ano. Mas que hei-de eu dizer que todos já não saibam? Que essa encantadora estância, apesar da péssima direção que o hospital – ou seja o dr. Cymbron seu diretor – dá aos divertimentos, conseguiu triunfar, pois foi entre as termas portuguesas a única, segundo se diz, que viu os seus hotéis cheios e as casas alugadas, isto apesar de no mês de Agosto os hotéis terem estado às moscas e as casas quase todas com escritos.

Mas a 29 e 30 d’esse mês as cartas, os telegramas, começaram a afluir, a serem marcados os quartos, e tomadas as casas, atribuindo-se esta afluência aos boatos que então circularam, e à confiança de todos os habitantes das Caldas, que respeitam as opiniões e as crenças de cada um. E mesmo se vocês, meus amigos, me deixarem meter o bedelho em política, eu diria que as Caldas continuam a ser o que sempre foram, isto é, monárquicas. Digo pouco, mas digo tudo.

Vamos porém à vida elegante das Caldas. Não é porventura isto que desejam?
Houve de tudo, não direi como nas boticas, mas como nos anos anteriores. Foram burricadas à Foz do Arelho, em que tomaram parte ou das quais foram iniciadas as gentis meninas – Mesdemoiselles Alvellos e Pereiras da Carvalho – que pela primeira vez vinham para as Caldas: foram pin-nics como o do Conventinho – a capela na magnífica quinta de Luiz da Gama – organizado pelas famílias de Nuno Queriol e Xavier de Almeida: foram chás à Foz do Arelho, e, para tudo haver, nesse sumptuoso e encantador Parque das Faianças que Rafael Bordalo Pinheiro fundou e que Costa Mota (Sobrinho) coadjuvado pelo dr. Martins Pereira e… Leal, até houve, dizia, um grande almoço em que os convivas eram perto de setenta, que saborearam pitéus inolvidáveis, entre os quais um bacalhau à Biscainha, arqui-delicioso, e cozinhado a primor pelo comendador Jorge de Almeida Lima.

Contudo foi a arte, que este ano teve nas Caldas todas as honras. Além d’essas duas distintíssimas amadoras que são as mesdemoiselles Mariana e Maria da Graça Reynolds, as quais honraram a tradição que na época anterior conquistaram, continuando a notabilizar-se como exímias executantes, a primeira no violino e a segunda em harpa, outras figuras distintas se evidenciaram este ano.

Foi uma d’elas, João Queriol, simpática criança, que ao piano e em trechos de autores clássicos, se revela já um grande artista, um futuro mestre. Seu pai, o ilustre oficial da marinha, Nuno Queriol, tem de orgulhar-se ao antever as glórias do filho.

Duas figuras femininas brilhavam pela arte: a sr.ª D. Fortunata Levy, filha do sr. Salomão Levy, que no concerto-festa do sexteto do club se mostrou de largo futuro e de bela escola – é discípula de Madame Penchi; e Mademoiselle Bertha Guimarães. Filha do sr. Alfredo Guimarães que se impôs como «diseuse» notabilíssima, quer na língua prática quer em francês, e que como cantora – apenas com cinco meses de estudo mas tendo por mestra a sr.ª Mantelli – mostrou que a educação musical, quando é esmerada é perfeita, faz realçar maravilhosamente as qualidades naturais de aptidão e talento.

E eis, meus caros, o que foram este ano as Caldas, terra talássica no dizer de muitos. Vosso amigo Egroj.”

Aproveitando as despedidas do autor, apresentamos também as nossas.