Vêm aí os cómicos

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José Ramalho
ator & marionetista

Fecha a porta, que vêm aí os cómicos! ou Aí vêm os cómicos, arrecada a prata! são duas frases que Júlio César Machado (1835-1890) escreveu num dos seus textos em “Quadros do campo e da cidade” (1868) a propósito de uma companhia de teatro ambulante.
Nem o escritor, com raízes maternas no Bombarral, dedicadíssimo à Arte de Talma, pretendia com estas frases manifestar o seu desagrado com o mundo dos actores, mas tão só relatar o que era comum dizer-se à época, sempre que uma companhia de cómicos chegava às terras do interior.
No decorrer de 2023 o Teatro Nacional D. Maria II sai do Largo do Rossio em Lisboa e vai invadir o território nacional com Teatro em mais de 90 municípios. Verdadeira “Odisseia Nacional” expressão de Pedro Penim, Director do Teatro Nacional para classificar o exaustivo trabalho de itinerância que as equipas técnicas e artísticas irão realizar em 2023.
E porquê? Porque o TNDMII vai entrar num processo de reabilitação ao abrigo do PRR ao longo do próximo ano, cujas obras têm um valor estimado de 9,8 milhões de euros.
Este facto, fundamental em qualquer Sala em cada 10 anos de actividade, gera a oportunidade benfazeja para que o Teatro seja colocado na agenda de programação das Salas dos municípios envolvidos, que muitas vezes vê esta Arte arredada do acesso às Salas, cuja arquitectura de cena, natureza técnica e tecnológica se deve à Arte do Teatro.
A recente criação da RTCP | Rede de Teatros e Cineteatros Portugueses, vê com esta acção o reforço da sua função estratégica. Sabe-se que o CCC e outras Salas da Região estão abrangidas pela saudável invasão do TNDMII. Em boa hora! citando Gil Vicente.
A programação artística das Salas de espectáculos pretende-se eclética, promovendo o saber e o conhecimento nas suas populações, de proximidade ou afastadas. Tornando a sua programação num objecto único, pela atractibilidade, gerando massa crítica que contribua para pensar as cidades do futuro e o papel da Arte, da Cultura, da Ciência, enfim do conhecimento, na capacitação das populações, tornando-as mais exigentes, mas resistentes, capazes de enfrentar os novos desafios, com criatividade, na promoção de políticas públicas mais concordantes com as necessidades das populações e seus territórios.
Uma população consciente, letrada, informada apura o seu sentido crítico, acrescentando reflexão à sua inquietação.
Contribuição para o envolvimento das pessoas e territórios nos discursos estéticos, na promoção da discussão colectiva, considerando a capacitação para a materialização e realização de projectos que de outro modo seria mais difícil acontecerem, despertando outros olhares, na descoberta do conjunto de ofertas artísticas e culturais, até por comparativo, face a outras realidades.
A Arte do Teatro, pela sua natureza, muitas vezes provoca e promove de forma muito mais directa, o que acima se descreve, por refletir sobre o pensamento contemporâneo, mesmo através dos clássicos.
A grande virtude do Teatro é a sua capacidade de contar histórias, por actrizes e actores que respiram o mesmo espaço e tempo que o espectador, transportando este para universos emocionais e racionais, independente do tempo histórico que no palco se representa.
Por tudo isto e muito mais esta “Odisseia” do TNDMII é uma grande notícia para os amantes da Arte e do Futuro! E ao contrário do que se diz no início deste texto: Abram as portas, que vêm aí os cómicos! ■

1 Verso do poema JOSÉ de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)