Poder do século XXI

0
278
Miguel Silvestre

Miguel Silvestre

És mais do que o que defendes, da família a que pertences, da carreira que construíste e das relações de amizade que cultivas desde a infância. Noutros tempos o que escrevias era privado, a partilha era uma opção, não a regra. Partilhar era algo que exigia um grau de confiança invulgar para o cidadão comum. No século XXI é possível furar barreiras e amplificar ideias e princípios graças à grande transformação da internet. Foram jovens adultos a conseguir esse impacto brutal e transformar o mundo numa aparente planície de oportunidades. Multiplicaram-se startups e projetos de tecnologia disruptiva. Recordo-me de, há uns anos, ouvir um dos criadores do Google Art explicar que a sua primeira motivação foi criar uma ferramenta para qualquer criança do mundo contactar com as grandes obras-primas da humanidade. E de como isso lhe foi permitido pela cultura corporativa da empresa que permitia aos colaboradores despender um pouco do seu tempo de trabalho em projetos relevantes.
Em 2022 multiplicam-se os sinais de que as grandes empresas também podem atuar como fatores de bloqueio à disrupção. Um interessante artigo de James Bessen, na MIT Technology Review (17/02/2022), sublinha isso. Não são apenas as aquisições de empresas e tecnologias emergentes que vão atrofiando a inovação, mas a capacidade das grandes empresas em implementar sistemas e tecnologias de larga escala, que tornam a missão das startups mais complexa. Os governos têm dificuldade em lidar com as megacorporações na aplicação dos fundamentos de qualquer estado liberal: regras de concorrência fortes e leis antitrust e cartelização. É perigoso deixar isso à responsabilidade dos “disruptores”. Alguns percebem que abrindo algumas das suas inovações tecnológicas a outros players isso poderá ser uma forma de criar novos mercados ou de acelerá-los. Da Amazon à Tesla são vários os exemplos. Mas onde não estamos a trabalhar com a premência que deveríamos é no fortalecimento da nossa individualidade enquanto cidadãos ou consumidores. Relativizamos muito do poder que deveríamos ter em detrimento da comodidade dos serviços que nos propõe essas empresas. E quando assim é, normalizamos o mercado e reduzimos a sua capacidade de absorção de produtos inovadores.
O poder do século XXI é o incremento da nossa dimensão cívica, não só física ou de consciência ou espiritual, mas também da digital. Hoje somos mais do que a primeira linha deste artigo, somos um roteiro digital da nossa maneira de pensar, que vai desde as nossas pesquisas até ao que partilhamos. Em muitos casos, a inteligência artificial adivinha e/ou condiciona o que pensamos. A anonimização dos dados, a sua análise quantitativa, não chega para que esse poder do século XXI seja de facto nosso.