Um ensaio de ação médico-social (1933)

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Joana Beato Ribeiro
Bolseira de doutoramento Fundação para a Ciência e a Tecnologia

Alguma vez pensou que um médico recém-formado pode sentir dificuldade ao enfrentar o mundo real? Fernando da Silva Correia relembra, neste artigo que durante este mês poderá consultar na Biblioteca Municipal, todos os modernos equipamentos e instituições que conheceu na Universidade de Coimbra, entre 1911 e 1917, mas que não encontrou nas Caldas da Rainha quando se tornou médico municipal em 1921. Restava-lhe então a “luta contra as deficiências do meio e do modo a modificá-lo”, uma luta que devia “ser rija” e, como veremos ao longo deste ano, composta por diferentes batalhas, cada uma com o seu propósito, mas todas tendentes a criar um impacto positivo nas Caldas da Rainha e na saúde pública.
No “campo da clínica municipal”, o médico menciona o aparecimento diário de crianças doentes devido à negligência materna e a inexistência de “auxílio metódico” para os tuberculosos, os sifilíticos, os leprosos ou os tracomatosos. Mais do que somente um “problema clínico”, a situação descrita representava um problema sanitário, jurídico, educativo, pedagógico e de assistência, “em todas as suas formas”, e exigia uma “resolução completa”. Ora, mas “Por onde começar?”
A primeira batalha deu origem ao Laboratório municipal, pensado para “as análises correntes de urinas e expectorações”, possibilitando uma maior agilidade nos tratamentos médicos. Acabou por analisar também leite “suspeito”, manteiga, sangue e água.
A segunda batalha teve início com as “Festas da Flôr organizadas pelo Diário de Notícias em 1924 e 1925”, que suscitaram uma colaboração “com as senhoras das Caldas para a instalação dum lactário-creche”, que foi também “uma escola de mães e um centro” de auxílio à primeira infância. Fernando da Silva Correia ficou encarregado das consultas de puericultura e dos folhetos de “vulgarização puerícola”.
A terceira batalha promoveu o “auxílio aos inválidos do trabalho”, para os quais foi criada uma instituição com “um largo programa de acção social”: a Misericórdia. Albergou, alimentou e vestiu todos os inválidos do concelho e os “pobres de passágem”.
Daqui encaminhamo-nos para a última batalha de hoje: a criação do Dispensário de Profilaxia Social, cuja intenção era facilitar o acesso às diferentes formas de assistência do concelho. Similar a outras instituições do país, teve o apoio de diversas entidades, como a Direção-Geral de Saúde. Contou com a ajuda do enfermeiro do Posto dos Comboios de Portugal e com uma visitadora de Higiene Social que era responsável pelos “inquéritos sociais metódicos”.
O artigo tece inúmeros dados sobre o Dispensário, em breve descobriremos porquê. Ficamos por aqui, com a ideia de que esta última batalha procurou uma forma de “cadastrar” e acompanhar os doentes, especialmente aqueles que, à semelhança de hoje (em contexto pandémico), eram portadores de doenças infeciosas. ■

HC-NOVA-FCSH; CEHFCi-UÉ; PH
SFRH/BD/149075/2019