Última crónica. Para o meu pai, Mário Nobre Soares.

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Cristina Soares
Consultora de Comunicação de Ciência

Ontem, ao terminar de ler uma passagem de um livro que falava sobre a primeira campanha nacional do trigo, no Alentejo, comentei:
– Gostava de poder comentar isto com o meu pai.
Passaram dezasseis anos da sua morte e ainda faço muitas vezes este tipo de comentários. Por vezes, tenho de corrigir o tempo verbal para o condicional. Para o “se”. Se ainda estivesse aqui. Se ainda fosse vivo. A ausência destes “ses” nas primeiras frases, traem-me muitas vezes. “Se” ele ainda estivesse aqui, gostaria de poder comentar isto com ele. A ausência tem destas guerras com as palavras.
Não interessa se discutiríamos, provavelmente, sim. Como em tantos outros assuntos. Mas as discussões e os desentendimentos não nos matam nem moem. Especialmente as que tive com ele, que foram sempre límpidas, olhadas de frente. Se hoje não tenho medo de defender aquilo em que acredito, a ele o devo. Não, os confrontos nãos nos moem. O que nos mói, numa dor fininha, à qual a gente se vai habituando com o tempo, por não ter outro remédio, como tudo o que se torna parte de nós, é a ausência. O que nos mói é a impossibilidade de dizer o que não disse por acharmos que ainda havia tempo. Achamos sempre que ainda há tempo. Mas um dia, sem aviso, já é tarde demais.
O luto, seja ele de dias ou de dezasseis anos, é aprender a viver com o que não se disse e aquilo que nunca diremos. Mesmo que seja uma frívola discussão sobre as campanhas do trigo no Alentejo.
Quando aceitei o convite para escrever uma crónica mensal para a Gazeta das Caldas, ao longo de um ano, fi-lo acima de tudo por causa do meu pai, que nos seus últimos anos colaborou activamente com este jornal. Nos seus últimos anos de vida, o meu pai pode finalmente fazer a segunda coisa que mais gostava a seguir a cantar: escrever e falar sobre aquilo que defendia. Sempre sem medo. Mesmo que isso lhe custasse alguma solidão.
Durante estes doze meses, que passaram num instante, talvez eu tenha usado cada uma das crónicas para conversar com ele. Um diálogo tido na impossibilidade que o espaço e o tempo nos criam.
No filme “Interstellar”, de Christopher Nolan, Cooper diz : “Quando és pai, tornas-te no fantasma do futuro dos teus filhos”. E é uma grande verdade. Não que nos assombrem, mas porque a dada altura da vida adulta, de alguma forma, tornamo-nos naquilo que eles foram.
Terão sido, com esta que escrevo agora, catorze crónicas. Catorze pequenas coisas que gostaria de ter conversado com o “fantasma do meu futuro”. Catorze conversas que, no fundo, acredito terem sido escritas as quatro mãos.
Fazes-me falta, pai. ■