Um dia a cidade vai abaixo!

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Jorge Mangorrinha

Escrevo este texto como cidadão, como reflexo de anos de estudo e de intervenção política e cívica, no meu desdobramento entre a cidade e a capital. Este texto é a síntese das sínteses, porque ainda não me conformo com tanta coisa que se passa nesta cidade, onde muitos são o reflexo de uma sociedade genericamente alheada.
Não sei se ainda poderei ajudar a mudar alguma coisa, seria pretensioso da minha parte, há trinta anos que apelo ao melhor que a cidade tem, para uma ideia fundamentada de futuro, sem me vender, sem me calar, sem baixar os braços, sem os chamados “rabos de palha” ou “telhados de vidro”.
Não sei se esta é a cidade das artes, quando tem casas e ruas feias, pedaços de coisas dispersas sem uma matriz e quando há quem se aproveite das artes (e da cerâmica, em particular), em vez de trabalhar com todos, em coletivo, para dar uma visibilidade interna e externa à cidade, que poderia ter sido o maior centro da arte e da investigação ligadas à cerâmica.
Não sei se alguma vez a cidade poderá ser termal, quando presentemente não se prepara um projeto ambicioso, cuja economia pudesse ser evidente, no contexto global da cidade, quando se adia a construção de um complexo termal de raiz, moderno e competitivo, quando o hotel nos Pavilhões do Parque nunca será um ícone da arquitetura, tal como não o é o Centro Cultural e de Congressos. Não sei se as gentes desta terra sabem que o desenvolvimento passa por oportunidades únicas, desde uma agricultura baseada em solos agrícolas de excelência à proximidade ao mar e à capital, tendo a cidade como polo de gravitação do progresso. Substitui-se o pó dos livros pelas frivolidades de um tempo sem tempo que tolda a visão lúcida do conhecimento. Vivemos perante uma sociedade líquida, que se dissolve, para ficar o nada. Lamentavelmente, de novo, a classe política parece preferir um povo ignorante, para agir como quer, usando futilidades, sendo benéfica para eles a inversão de valores e interesses. A estética, a exigência e a qualidade não agradam a muitos, mas aquilo que agrada a quase todos nunca poderá deixar de ser superficial, porque pessoas há muitas, afinidades há poucas.
Faltam vozes que valorizem a vida em comunidade, os costumes, a instrução pública, o respeito, a família. Falta gente com conteúdo, que leu em Jorge de Sena, Vitorino Nemésio, Agostinho da Silva, David Mourão-Ferreira, Eduardo Lourenço, José Gil, autores de um País que lhes foi demasiado pequeno, e esquecidos, entre os seus refúgios e a existência miserável das celebridades e seus seguidores. Falta gente para entender o mundo e pensá-lo melhor, porque não pensar cristaliza o ser humano, reduzindo-o a um corpo que apenas mecaniza atitudes sobre as quais também não tem opinião. Faltam os faróis deste mundo escurecido, mas que, afinal, tem tanta beleza que está nos olhos de queira vê-la.
Não sei qual o futuro do meu País. E também o de uma cidade, quando os decisores não demonstram saber que o território urbano é um sistema. Um sistema constituído por diferentes actividades conexas, e até sujeito a conflitos, mas que potencia sinergias através de acções qualificadas, duradouras e valorativas da cidade. Um sistema que deveria ter na saúde, no termalismo e no seu centro histórico o polo central, mas um sistema que também tenha uma gastronomia adequada aos aquistas, uma animação regular, um comércio distinto, espaços cuidados para passear, um ambiente urbano cativante e locais de encontro e sociabilidade. Não sei como vai ser. Só sei que não quero ir por aqui.
(Falo das Caldas, para todos Vós!)