Um Livro Por Semana 227 – «Anthero Areia & Água» de Armando Silva Carvalho

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Armando Silva Carvalho (n.1938, Olho Marinho) revisita o tempo e a vida de Antero de Quental a partir dum seu poema publicado na Revista Colóquio-Letras nº 173 e da leitura das Cartas de Antero na edição de Ana Maria Almeida Martins.

Para além de João de Deus, Herculano, Bulhão Pato, Cesário Verde ou Raul Brandão, para além de Proudhon, Hegel, Tolstoi ou George Sand, que povoam o tempo de Antero, há nesta homenagem poética uma aproximação feliz. Toda a literatura é uma homenagem à literatura e, por isso, Armando Silva Carvalho escreve no registo de Antero: «Secretário da alma, o coração / Não descansa na laje da morada em que sossega. / Estremece nos seus sonhos / E volve em seu redor o olhar desmesurado: / É dia de além sol, além lua, além distância / Rasgadas as palavras de abandono / E luta. Mas a Terra é a escrita / E o livro o Universo».
Num certo sentido é o século XXI que responde ao século XIX: «Há coisas que normalmente não vemos: os obituários. / Cheira a fim de regime e só os loucos ou extremistas / Acham que tal coisa é uma boa perspectiva / Escreve hoje na gazeta um jornalista famoso. / Ninguém recorre aos mortos que acabam de morrer / Para uma visão do mundo e do futuro». Apetece responder: só a Poesia sabe fazer esse intervalo entre dois mundos separados: «Cento e dezoito anos não são tempo / Que faça arrefecer um corpo / Escrito. / Podem ser apenas uma noite, um sonho alucinante / Ou um dia inteiro, de natureza desperta / Um fruto, uma folha, uma raiz».
(Editora: Assírio & Alvim, Capa: Mário Cesariny)