Um Livro Por Semana / 578

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Gazeta das Caldas
| D.R

«A mais absurda das religiões» de Nuno Costa Santos

UM LIVRO POR SEMANA / 578 / José do Carmo Francisco - Gazeta das Caldas

Nuno Costa Santos (n.1974), director da Revista literária açoriana Grotta, é escritor e argumentista para além de autor de peças de teatro e documentários sobre poetas (Ruy Belo e Fernando Assis Pacheco) sendo cronista na Revista Sábado.

O conjunto destas crónicas escolhidas por Diogo Ourique chega às 208 páginas e divide-se em cinco grupos: «Vida, vidinha», «Produtor de conteúdos», «O pai cronista», «Alguns nomes» e «Dois países».
Na introdução o autor explica o livro («Isto dava uma crónica. Houve uma altura em que estava agarrado à crónica, condição da qual nunca consegui recuperar. Qualquer coisinha trazia, enroscada, uma ideia para escrever uma crónica. Ou para ter a ideia de escrever uma crónica») e explica-se a si mesmo, deste modo: «Aqui o vosso cronista é um bicho atípico (um dia vou escrever um pouco à maneira dos mestres Millôr e O´Neill, um manual de instruções para ser melhor compreendido por aqueles que têm por hábito arrumar as pessoas em gavetas). Mas posso dizer que tenho aspectos conservadores: sou muito apegado aos meus e à minha terra, sou pelo fazer individual (detesto a palavra «empreendorismo»), sou comunitarista: acredito muito no voluntariado, algo que é alvo de desconfiança por uma esquerda estatista. Mas também sou solidário, também sou pela atenção do Estado aos mais desprotegidos socialmente, também sou liberal nos costumes, também quero caminhar para uma sociedade mais justa e mais fraterna.»
O título do livro surge na página 86: «Sentado num café à espera de um amigo que não chega. Escrevo. Num pequeno caderno. E penso que escrever é a mais absurda das religiões. Para quê escrever se posso ver o jogo de ténis na televisão. (Um tipo de pólo verde esta a fazer um serviço.) O amigo é jornalista, desculpa ainda melhor do que a de ser pai de um rapaz de dois meses (que sou).»
Exemplar é, entre outras, a crónica da página 96 que começa com uma aproximação pessoal («Quando eu tinha 17 anos o meu pai achou que o filho não devia seguir o curso de Comunicação Social porque depois iria ficar no desemprego.») e deriva para uma situação mais geral: «Diz-se e bem que não há democracia sem jornalismo. Direi mesmo: não há democracia sem bom jornalismo, exigente, feito de frescura mas também de experiência, de olhar atento e experimentado, mais sabedor das curvas que a vida pública pode dar.»
(Editora Escritório, Organização e Revisão: Diogo Ourique, Capa: Joana Viegas, Design: Dânia Afonso)