UM LIVRO POR SEMANA / 585

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Gazeta das Caldas
I D.R.

«Novas quadras quase populares» de Manuel Barata

 

Passaram 14 anos desde o livro de estreia de Manuel Barata («Quadras quase populares») e com este recente «Novas quadras quase populares» o poeta (n.1952) regressa ao «modo» quadra que, como se sabe, tem as suas ambições mas, ao mesmo tempo, os seus limites. A quadra é como uma cadeira: está limitada às quatro linhas como a cadeira às quatro pernas. Procura condensar todo um Mundo em quatro versos mas está refém da sua dimensão. Vitorino Nemésio (1901-1978) conseguiu em «Festa Redonda» a difícil articulação entre o clássico e o popular, o erudito e o simples, o trabalhado e o espontâneo.
O poeta apresenta-se perante o Mundo: «Amo coisas triviais / Sempre fui tão terra-a-terra! / O pão, a paz, a liberdade / A graça que a rosa encerra.» Entre o poeta e o Mundo fica o seu ofício: «Uma quadra popular / Trabalhada com talento / Pode muito bem captar / A beleza de um momento.»
O olhar do poeta sobre o Mundo tem um ângulo que umas vezes é geral, outras vezes particular. Pode referir-se à`emigração: «Já sem mala de cartão / Procura noutro país / Com um diploma na mão / Um modo de ser feliz.» Mas também à mãe do poeta: «Minha mãe ainda chora / Com saudades de meu pai / Não tem dia, não tem hora / Sem lamentos, sem um ai.»

Neste livro de 78 páginas surge estabelecido um itinerário de viagem (Mata, Castelo Branco, Ericeira, Sesimbra, Penamacor, entre outras localidades) mas o fim do livro e da viagem é a romaria maior da Beira Baixa: «Senhora do Almortão /Que tendes linda morada/ Sois uma rosa em botão / Sois uma rosa encarnada.» As quadras deste livro podem ser lidas também como uma oração porque aspiram a juntar de novo tudo o que a morte separou.
(Introdução: Manuel Ribeiro Vaz, Capa: Hugo Feio, Paginação: Ana Nunes)