UM LIVRO POR SEMANA / 568 – «Últimos no Leste de Angola» de Jorge Machado-Dias

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| D.R.

Com a colaboração de José Manuel da Silva e de Almerindo Figueiras, este livro de Jorge Machado-Dias (n.1953) tem 326 páginas e o subtítulo de «Na retirada do Exército Português em 1975». O ponto de partida é clarificar o que se passou com o chamado «Batalhão do pé descalço». Isto só foi possível porque o autor sobreviveu ao boato que o dava como «morto» num acidente rodoviário: «Corre por aí que morreste num acidente qualquer!» – afirma Jacinto Caeiro à porta do RI21. «Furriel Dias? Eh pá! Então você não morreu no acidente?» perguntaram três soldados em Luanda. Mas o Furriel Dias foi antes cabo miliciano, uma das originalidades portuguesas que poupou milhões de escudos ao Estado: «com o vencimento de um soldado, tinha um cabo a fazer um serviço de sargento».

O relato está organizado em vários registos pois além do depoimento pessoal, o livro integra um glossário de siglas e palavras pouco habituais (maka, CISMI, mentideros, revisa), um registo paralelo de acontecimentos no espaço continental Português, relatórios, vários mapas e algumas fotografias. Mas é no registo paralelo da cronologia do que se passava em Portugal que o autor toma uma atitude «contra a corrente» Por exemplo sobre o golpe spinolista de 11 de Março de 1975não se refere ao assassinato do soldado Joaquim Carvalho Luís. Pelo contrário pode ler-se na página 71: «Todo o país viu o «filme» hilariante pela TV.» Além do mais refere que o IV Governo tomou posse em 26 de Março mas indica o Governo de Vasco Gonçalves como «responsável» das nacionalizações da Banca e Seguros quando essa decisão foi de facto do Conselho da Revolução logo na noite de 11 de Março de 1975.
Um aspecto curioso é o dos Acordos de Alvor, as «Forças Integradas» e a sua impossibilidade prática: «Quase sempre após a instrução das FI os novos militares angolanos desertavam em massa levando com eles as armas, as munições e os fardamentos, para ir engrossar as fileiras dos exércitos dos respectivos Movimentos».
Outro pormenor diz respeito à relação estabelecida entre os militares e os civis no Luso: «Ficávamos sempre com a ideia de que aquela gente «era mais salazarista do que o Salazar», como dizia o Silva. Mas o que achei sempre mais estranho foi que nenhum dos civis com quem tinha contactado parecia informado de que nós seríamos as últimas tropas portuguesas naquela cidade e não tardaria muito a irmos embora.»
(Edição: Chiado Editora, Capa e Grafismo: Pedro Teixeira, Editora: Renata Alves, Revisão: Jorge Machado-Dias)