O quadro de Cesare Novi recorda uma festa na aldeia. Transporta mais do que cores e formas, integra as emoções de quem se descobre também protagonista do quadro. À direita um conjunto musical que nos anos 50 se chamava «Jazz Band» e na minha terra aparecia todos os anos vindo ora da Marinha Grande ora da Vieira de Leiria. Guardo na memória uma cantiga desse tempo – «OhTia Ana do moinho / do moinho do moleiro / vale mais o seu moinho / do que vale o mundo inteiro». A festa era também os carros de bois que se juntavam para fazer o palco onde actuava a Filarmónica Catarinense junto ao muro da casa do tio Zé Rebelo. Foi lá que ouvi pela primeira vez «As bodas de Luís Alonso», a marcha «Diário de Notícias» e outros clássicos da chamada música popular.
Eu fui um dos rapazinhos que de camisa branca e calça preta vendeu
peças de carne com louro e colorau debaixo do grito ingénuo: «Quem dá mais ó debote!». E toda a gente sabia que se devia dizer «ó devotos!» mas não saber era ser feliz. Não havia electricidade e as cervejas, as laranjadas e
as gasosas eram colocadas num lugar do arraial à sombra dentro duma celha de madeira onde se despejavam almudes de água fria da nora da Casa Grande.
Havia a quermesse com as prendas a serem na maior parte peças bonitas de SECLA que o controle de qualidade rejeitava mas que ninguém percebia o defeito. Todos os anos em Novembro vinha a festa de Santa Catarina de Alexandria, aquela que o Rancho Folclórico local homenageava cantando «Em Alexandria / teu saber profundo / confundiu um dia / os sábios do Mundo».
Era um mundo especial aquele nosso mundo na minha terra: por um lado o elogia da modéstia da moleira, por outro o louvor da sabedoria de Santa
Catarina em Alexandria, no Egipto. E nós no meio, com as lágrimas nos
olhos.
José do Carmo Francisco