VASCO TRANCOSO – O momento da imagem demora-se no tempo.

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Gazeta das Caldas

Gazeta das CaldasEntrevistei Vasco Trancoso no Caixa Negra na Rádio no ano de 2017. Lamento imenso este projeto de crónicas na Gazeta não me permitir escrever sobre todos os meus entrevistados dos tempos do Caixa Negra da Rádio. De facto, a imersão no mundo de cada conversa, o tom de voz, o timbre, a emoção, a partilha são de uma riqueza tão grande que teria só na nossa cidade, décadas de trabalho para me poder encontrar com todos os cidadãos, mais de 51 mil e que certamente terão todos eles muito para contar.
O tempo, o bem mais precioso que temos na vida, e o que fazemos com ele, as nossas escolhas e os momentos de contemplação do quotidiano, do belo no quotidiano, é o que de igual forma nos formata para a vida. Se um bom fotografo no tempo das máquinas de rolo teria de “jogar” com o tempo de exposição à luz, da abertura do diaframa, poder-se-ia dizer que a gestão do tempo seria o que fazia de um fotografo, ser bom ou mau.
A exigência e o interesse desta crónica levaram-me a ler o ultimo livro de Sebastião Salgado, que nascido no Brasil viveu a sua juventude na imensidão, a imensidão do espaço, do tempo que demorava a percorrer o espaço, da imensidão de estímulos que alguém como ele, vivendo em Minas Gerais e rodeado de vales que plenos de árvores e rios são do mesmo tamanho de todo o país de Portugal, entende o tempo e a distância de forma obrigatoriamente diferente. A determinada altura diz: “ Here I learnt to see and love the diferent light that has followed me all my life” ou “Aqui eu aprendi a ver e a amar a diferente luz que me perseguiu toda a vida”. Esse Brasil imenso e uma vida que o expôs à luz do sol, à penumbra, à luz da noite, à luz do raiar da madrugada, na vida de campo desde miúdo, fizeram de Sebastião alguém para quem essa luz influenciou de forma irreversível a sua perceção do mundo.
Falando de Vasco, penso que poderemos falar de alguém que brinca com a luz e a sua perceção, que alem de complexa é uma continua espera pelo momento certo de encontrar o momento ideal, a conjugação de planos, a côr e o acaso, esse acaso que Vasco procura todos os dias e que nem sempre encontra e que fazem do seu mundo de imagens, a captação de momentos em que a magia acontece, entregando-lhe na mão todo o cosmos alinhado num só segundo, em que os “Deuses” dançam com ele nas ruas da nossa cidade, brincando ao esconde esconde e revelando-se de forma totalmente inesperada no instante de um click.
Um fotografo como Sebastião fala-nos do tempo em que na quinta de seu Pai, demorava 45 dias a encaminhar o gado para o matadouro. Não existiam estradas, e o caminho feito a pé ou a cavalo nos dias de sorte, fez de Sebastião alguém especial no entendimento do tempo. Diz com ironia, que hoje vivendo em França, quando se desloca à China ou à América em trabalho, demora menos tempo do que nos seus tempos de criança, quando levava o gado ao matadouro. O tempo e o entendimento do tempo no espaço.
Vasco diz-nos que esse mesmo tempo é uma procura constante pelo momento certo onde o click, se transforma no meu entender num diálogo com Deus que lhe mostra a magia dos dias no quotidiano, e para mim uma vida inteira de procura pela perfeição como foi a dele, ironicamente não depende em nenhum dos momentos de nós próprios, mas sim desta conjugação errónea da oferta do inesperado, na beleza de todos os dias mas acima de tudo na capacidade de através da nossa “lente” ou “mente” entenderemos essa mesma perfeição no meio deste caos em que achamos que vivemos e que afinal se revela mágico todos os segundos, apenas temos de encontrar o tempo.
Pode seguir o trabalho de Vasco Trancoso no Facebook em “vasco trancoso – b&w photography”

Mariana Calaça Baptista
info@marianacalacabaptista.pt