Vegetais escondidos

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Mercês Silva e Sousa
professora

As obras do parque subterrâneo da Praça 25 de abril começaram a dezasseis de Dezembro de 2013. Durante 2014 até à sua inauguração, a um de março de 2015, tive oportunidade de acompanhar a sua evolução.
Observando atentamente as escavações detetei, “escondidas” no seu interior, faixas castanhas escuras, quase negras, postas a descoberto, e tendo identificado como carvão.
O carvão natural é uma rocha resultante da acumulação de matéria vegetal parcialmente decomposta por bactérias, em ambientes relativamente calmos, sem oxigénio (anaeróbios). Com o aumento da profundidade, da pressão dos sedimentos e da temperatura, dá-se um incremento progressivo da quantidade de carbono nesses materiais (incarbonização), uma redução de água, por compactação, e de voláteis (principalmente metano e dióxido de carbono) e aumento de poder calorífico. Formam-se quatro tipos principais de carvões: turfa (menor decomposição e incarbonização), lignite, carvão betuminoso e antracite (maior poder calorífico, maior teor de carbono e menor quantidade de água – mais evoluído).
Os lignitos castanhos, em Portugal, são mais modernos (Pliocénico – entre cerca de 5.33 e 2.58 Milhões de anos) do que os negros (Jurássico superior – entre cerca de 154 e 145 Milhões de anos). Com um grau de incarbonização mais elevado, estes, mais antigos, sofreram o efeito dos aumentos de pressão e da temperatura a que foram sujeitos por soterramento muito mais prolongado e intenso. Algumas destas jazidas foram exploradas no passado, em Caldas da Rainha, encontrando-se hoje extintas ou abandonadas, tendo tido conhecimento de uma mina na Rua D. João II, (perto da Escola Secundária de Raúl Proença), também na Foz do Arelho, e entre a Rocha do Gronho e o Rio Cortiço.
Poderemos imaginar uma região como Caldas da Rainha coberta de vegetais há uns bons milhões de anos, por encontrarmos carvões postos a descoberto em alicerces de urbanizações ou noutros locais.
Quando jovem, muito apreciava os professores que conheciam bem as rochas no meio natural, muitas vezes escondidas por vegetação ou até intervenções humanas! O estudo no campo é muito diferente da observação numa fotografia, num livro ou numa amostra de mão. A agricultura depende dos solos e estes das rochas.
Torna-se fundamental a presença de geólogos nas equipas que avaliam terrenos onde são realizadas construções e as noções de geologia geral pelos futuros compradores de terrenos agrícolas e /ou de zonas a serem urbanizadas de diversas formas! ■