Zé das Papas

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Lentilhas

Regressado do pulo à Feira de Castro, perante o arrefecimento do ar e as bátegas de água que me desabaram sobre a cabeça ao menor descuido, deparei com o Outono em toda a sua pujança.
Em “As Festas e Comeres de Portugal”, que Maria de Lourdes Modesto escreveu com Afonso Praça e que Nuno Calvet fotografou, vem bem explicadinho o quê e o porquê do que se come nesta caminhada temporal.
Sob essa influência…ou não, dei-me a lembrar das lentilhas, tão pouco nossas conhecidas!
A lentilha é originária da Ásia central e foi, durante séculos a alimentação dos pobres.
A civilização egípcia constitui um marco no cultivo extensivo e esmerado das lentilhas que passam a ocupar um primeiríssimo lugar na dieta alimentar. No Egipto, a lentilha era um alimento de uso comum; encontra­ram-se sementes em túmulos da XII Dinastia, que  remonta a  2.200 anos antes da nossa era.
Roma importava do Egipto barcos inteiros de lentilhas.
No século I AC, a lentilha foi introduzida na Índia, país cuja cozinha tradicional utiliza, num prato conhecido por “dal”, lentilhas picantes como ingrediente-chave.
Muitos países católicos utilizam a lentilha durante o período da Quaresma.
Actualmente, os principais produtores desta leguminosa a nível mundial são a Índia, Turquia, Canadá, China e Síria.
A Lentilha é a semente de uma planta pertencente à espécie Lens ensculenta, que é constituída por vagens que contêm uma ou duas sementes.
São classificadas de acordo com o seu tamanho e existem dezenas de variedades que se distinguem pela cor que exibem: verde, castanho, preto, amarelo, vermelho ou cor-de-laranja. As diferentes variedades apresentam consistências também diferentes.
Comparando com outras leguminosas, as Lentilhas apresentam tempos de preparação e confecção mais curtos. As verdes e castanhas mantém melhor a sua forma após a cozedura, enquanto as restantes geralmente apresentam consistências mais suaves. O sabor também varia consoante a variedade, apresentando, porém, na sua maioria um sabor pouco acentuado.
Absorvem facilmente o sabor dos alimentos e temperos com os quais entram em contacto.
São uma boa fonte de fibras capazes de baixar o colesterol. Não só ajudam a reduzir o colesterol, como possuem um poder especial de controlar distúrbios de açúcar no sangue devido o seu alto teor de fibras, que impede que os níveis de açúcar no sangue aumentem rapidamente após uma refeição.
Também fornecem uma quantidade excelente de seis minerais importantes, dois B-vitaminas e proteínas, tudo praticamente sem gordura.
Os estudos têm mostrado que a fibra insolúvel ajuda a prevenir a obstipação, mas também ajuda na prevenção de doenças digestivas como o síndrome do intestino irritável e diverticulose.
Além dos efeitos benéficos sobre o sistema digestivo e do coração, a fibra solúvel ajuda a estabilizar os níveis de açúcar no sangue.
Alimentícias e energéticas (336 Cal por 100 g), as lentilhas são ricas em proteínas (24 p. 100), em glúcidos (56 p. 100), em fósforo e em ferro, tal como em vita­minas B. Cozem-se e preparam-se como o feijão branco, mas há quem aconselhe não as demolhar. Quentes, as lentilhas são utilizadas como acompanhamento (em puré, em molho de carne, com creme, com salsa), ou como sopa. Também se utilizam em salada.
O famoso trecho do Génesis (25, 29-34) que se situa por volta de 1750 anos, antes de Cristo relata:
“Um dia Jacob preparou uma sopa, quando Esaú chegou do campo muito fatigado; disse Esaú a Jacob: deixa-me comer esse guisado vermelho, que estou sem forças. Respondeu Jacob: cede-me o teu direito de  primogénito, tendo Esaú dito: estou que morro, para que interessa a pri­mogenitura? Jura-me disse Jacob. Esaú jurou e assim vendeu a Jacob a sua condição de primogénito. Só então Jacob lhe deu pão e um prato de lentilhas; Esaú comeu e bebeu, levan­tou-se e foi-se embora, mas não lhe cedeu a primogenitura.”

João Reboredo
joaoreboredo@gmail.com