“Senti-me traído politicamente por Vítor Marques”

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Candidato do PSD nas Caldas admite, em entrevista à Gazeta e à 91FM, que ficou surpreendido com a candidatura encabeçada pelo presidente da União de Freguesias de Nossa Senhora do Pópulo, Coto e S. Gregório. Mas acredita na obtenção de uma nova maioria absoluta nas próximas eleições autárquicas

Recandidato a um terceiro e derradeiro mandato à frente da Câmara das Caldas da Rainha, Fernando Tinta Ferreira garante que pretende concluir o ciclo de 12 anos como chefe do executivo municipal. E com nova maioria absoluta.

Depois de ter sido eleito, em 2013, com quatro mandatos, chegou aos cinco em 2017. Qual é o objetivo do PSD para as próximas autárquicas?
O objetivo é ganhar e, obviamente, de preferência com maioria absoluta. A maioria é importante para garantir a estabilidade governativa. Quando pretendemos desenvolver uma atividade para o concelho é importante saber que temos uma maioria que apoia as propostas do executivo. Por tradição, o PSD ganha com quatro mandatos nas Caldas, com exceção de três ocasiões, duas com Fernando Costa e outra comigo, em que conseguimos cinco mandatos. Diria que, em circunstâncias normais, é importante ganhar com maioria absoluta e esse tem de ser o nosso objetivo.

E o que ficou por fazer nestes oito anos e que pretende fazer nos próximos quatro?
Em 2013, dissemos ao que vínhamos e com o horizonte temporal de três mandatos. Recordo-me de ter dito que tinha o objetivo principal de, numa década, dar o contributo, juntamente com a minha equipa, para ajudar a resolver três problemas que constavam dos programas eleitorais dos últimos 40 anos de todos os partidos: o Hospital Termal, a Lagoa de Óbidos e a Linha do Oeste. Tirando a derrapagem das obras na Linha do Oeste, estamos a meio do processo de ter esses temas resolvidos. Em 2013, o Hospital Termal estava fechado e o Estado não queria investir. Esta é uma questão estrutural, porque, em nosso entender, não há Caldas sem Hospital Termal. Era decisivo que fosse feito algo para reabrir o Hospital. Foi moroso, mas conseguimos, em 2015, assinar os autos de cedência e começar a trabalhar. Depois de um investimento de quase 1 milhão de euros, reabrimos o Hospital em 2019. A pandemia não nos permitiu desenvolver, em termos de marketing, a campanha que pretendíamos, mas essa realidade afetou inúmeros setores. Estamos a requalificar o património religioso, na Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, com recurso a fundos europeus, com o propósito de, tal como definiu a rainha D. Leonor, ali se poder tratar a alma e o corpo. Há muita coisa a ser feita, mas estamos a fazer um caminho.

“O investimento [nas dragagens da Lagoa] pode não ser suficiente, daí que tenhamos lançado a ideia de adquirir
uma draga”

 

E quanto à Lagoa?
Houve um esforço de posicionamento no sentido de haver um entendimento com a Câmara de Óbidos relativamente às dragagens. E esse foi o passo decisivo para termos ali uma draga, que, esperamos, em breve, comece a fazer as dragagens no valor de 15 milhões de euros. É muito dinheiro em dragagens para salvar a Lagoa. A partir do momento em que houve um entendimento entre as Câmaras, o Estado deixou de ter desculpas. Este investimento pode não ser suficiente, daí que tenhamos lançado a ideia de adquirir, em conjunto, uma draga. Quanto à Linha do Oeste, lamentavelmente o concurso ainda não está adjudicado, mas a pressão que temos feito, os vários partidos e movimentos, haverá de dar frutos. Do meu ponto de vista, fazer Caldas-Lisboa em 1h20 é competitivo para quem vai trabalhar. Esta batalha está demorada, mas sei que a vamos vencer. Não sei se a vamos vencer na próxima década, mas espero ainda apanhar o comboio, um comboio elétrico, para Lisboa no meu último mandato.

E o processo do hotel nos Pavilhões do Parque?
Temos o projeto de arquitetura aprovado. Percebemos que os investidores estejam algo receosos, mas garantem-nos que é para avançar. Até porque os projetos custaram muito dinheiro e quem investe não o faz sem ter intenção de fazer a obra. E podia aqui falar da requalificação do parque D. Carlos I, que estava abandonado, não tinha visitação, nem segurança e hoje tem procura, graças a um modelo de gestão de proximidade. Nestes cinco anos, transferimos para a junta cerca de um milhão de euros para a gestão do parque, fora outros investimentos que fizemos diretamente.

Já afirmou que pretende renovar a maioria, mas nunca houve tantos candidatos à Câmara. Isso dificulta a ação do PSD?
Isso não é um problema. Torna mais difícil, mas não impossível. Acredito que a população consegue perceber a necessidade de haver estabilidade política para governar. Reconheço que a existência de um partido à nossa direita [Chega] e um movimento [Vamos Mudar] com pessoas que têm alguma notoriedade e até tiveram visibilidade por trabalharem connosco, pode retirar-nos alguns votos e fazer reduzir a nossa votação. Por isso é que não digo que o objetivo é ter cinco vereadores. Pode acontecer, mas o objetivo tem de ser a maioria absoluta.

“A população consegue perceber a necessidade de haver estabilidade política para governar”

Sentiu-se traído pelo surgimento da candidatura de Vítor Marques (Vamos Mudar)?
Politicamente, sim. Não havia razões que pudessem justificar essa decisão. Houve um processo de identificação completa do modo de ação, das metodologias de trabalho e da relação, até pessoal, que já existia antes e continuou com o trabalho político. O próprio candidato [Vítor Marques] disse na apresentação da candidatura que se revia no projeto e na metodologia [do PSD], pelo que a pergunta que se impõe é: porquê? Porquê esta candidatura? Não houve nenhum momento de desagrado ou incómodo. Há, claramente, uma surpresa, mas nunca quis acreditar, confesso. Sou um homem que confia nas pessoas, que acredita na natureza humana. Por isso, não havendo razões concretas do ponto de vista político que justificassem um caminho diferente, não percebo a candidatura. Até determinado momento tinha ali um parceiro, pelo que confesso que me senti traído politicamente. E não vejo razão para isto ter acontecido.

O que propõe em termos de política cultural para o concelho nos próximos anos?
É importante que se recorde que atingimos um marco notável em 2019, ao sermos eleitos cidade criativa da Unesco. Do ponto de vista cultural, isso é um marco. Não sendo uma capital de distrito, conseguimos mostrar aquilo que produzimos no concelho e ter essa relevância. Apresentamo-nos com trabalho feito e a expetativa é que esse trabalho seja reconhecido. Estamos num processo de valorização dos nossos agentes criativos. A ideia do corredor criativo, que liga a ESAD ao CCC, está em marcha. Estamos a projetar a requalificação do Museu da Cerâmica, estamos a trabalhar com a Molda, temos um projeto para a Oficina dos Artistas na Parada, entre várias outras iniciativas. Há dias, a Gazeta publicou um estudo da Pordata que dá conta que Caldas é o município que mais investe em desporto e cultura no Oeste. Éramos o 3º em 2013 e somos o 1º agora. Isso é muito importante. Em termos absolutos, por várias razões, temos metade do orçamento de Torres Vedras e cerca de dois terços do orçamento de Alcobaça e temos impostos muito baixos. E, mesmo tendo um orçamento mais pequeno, somos o município que mais investe na cultura e no desporto. Isso é muito revelador daquilo que é a nossa disponibilidade para valorizar estes setores, por considerarmos que a cultura e o desporto são decisivos para a afirmação da nossa comunidade e para a qualidade de vida. E isso acaba por ter implicações no turismo, onde estávamos a crescer mais do que os outros concelhos, mesmo sem um ícone como o castelo de Óbidos ou o Mosteiro de Alcobaça. Mas temos procurado valorizar o que temos e a nossa centralidade. A ideia é retomar esta dinâmica, quando a pandemia acalmar. E crescer muito em torno da atividade termal. ■

Tinta Ferreira foi vereador de Fernando Costa e assumiu a liderança do executivo em 2013

“Temos de melhorar as condições da Praça da Fruta”

Chefe do executivo municipal quer novos toldos e manter custos baixos para
os vendedores

Fernando Tinta Ferreira quer investir na Praça da Fruta e não admite um cenário em que aquele mercado ao ar livre deixe o tabuleiro da Praça da República.
“Não queremos um mercado fechado. Se a Praça da Fruta sair dali, passamos a ser uma cidade como as outras. Temos é de melhorar as condições da Praça”, garante o candidato do PSD, para quem é essencial “substituir alguns toldos e manter os custos baixos para os vendedores”, por forma a que o mercado se mantenha atrativo “também para as novas gerações”.
O social-democrata recorda que, como resposta à pandemia, os vendedores deixaram de pagar “a montagem dos toldos”, um custo que passou a ser assegurada pela autarquia. “O que pagam para ali vender é muito pouco e esse é o principal incentivo”, salienta o advogado, de 56 anos, que considera importante que a Praça da Fruta venha a criar uma área “exclusivamente destinada a produtos biológicos”.
No que diz respeito à Praça do Peixe, o cabeça de lista dos social-democratas defenda que será necessário realizar uma intervenção no edifício para “melhorar as condições do interior, que permite ter uma oferta mais diversificada e que vá além do peixe de qualidade”.

Candidato não admite cenário que coloque novo Hospital do Oeste fora das Caldas

Quanto à localização do futuro Hospital do Oeste, Tinta Ferreira diz que “seria muito difícil acomodar a ideia de que não fique nas Caldas” e considera, mesmo, que a constituição do Centro Hospitalar do Oeste foi uma “má solução”. “Há que reverter essa decisão. O Governo deveria voltar a recriar o Centro Hospitalar do Oeste Norte e Caldas, ou a confluência de Caldas e Óbidos, é a melhor solução para a localização”, adverte.
O ciclo de entrevistas prossegue, na próxima semana, com o candidato do BE à Câmara de Óbidos, João Paulo Cardoso. ■