“Eu não tenho medo do Dr. Fernando Costa, mas também não estou para aturar o ambiente de guerrilha, crítica e de provocação permanente”, diz Telmo Faria

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Depois de ter colocado “Óbidos no mapa” o presidente da Câmara de Óbidos, Telmo Faria, afirma que não tem condições para continuar na vida política no distrito de Leiria e diz-se vítima dos ataques do presidente da distrital do PSD, Fernando Costa.
“O presidente da distrital nunca gostou do presidente da Câmara de Óbidos, procurou sempre fazer-lhe a vida negra em todo o lado e hoje dá-se ao desplante de dizer que até o apoia para cargos importantes no futuro dentro do partido”, diz o autarca, que classifica as suas declarações de hipócritas e incoerentes.
Em entrevista à Gazeta das Caldas Telmo Faria diz que o seu futuro poderá passar pelo sector privado, mas garante que ainda nada está decidido, até porque tem recebido convites para se candidatar a várias câmaras no país. Da gestão de Óbidos fica-lhe a vontade de continuar ligado à estratégia de alargamento nas áreas económicas e atracção da classe criativa e de introdução de uma nova pedagogia em escola pública.
Telmo Faria garante que não tem nenhuma rivalidade com as Caldas, que sempre foi a cidade de Óbidos. “O que acontece de bom nas Caldas nós vibramos, o que acontece de mau preocupa-nos e, muitas das vezes, atinge-nos porque a nossa população tem muitos empregos nesse concelho”, diz o autarca, para quem esta relação de proximidade devia ser estreitada.
Actualmente com 40 anos, Telmo Faria conquistou a liderança da Câmara de Óbidos aos 29 anos. Natural das Caldas e residente no concelho de Óbidos, o autarca é formado em História e possui uma pós-graduação em Relações Internacionais e um mestrado em História Contemporânea.

GAZETA DAS CALDAS – A indicação do seu nome para se candidatar a Leiria pela revista Visão e a entrevista que deu a Jornal de Leiria a recusar liminarmente essa hipótese insere-se nalguma estratégia da sua afirmação no PSD nacional de que se queixa marginalizado?
TELMO FARIA –
Não tem nada que ver com o PSD nacional. O que eu disse na entrevista no Jornal de Leiria foi que sendo o presidente da distrital do PSD [Fernando Costa] a única pessoa que conheço que me tem combatido permanentemente nos últimos 10 anos, que acho que não tenho condições objectivas de fazer um trabalho muito complexo como o de devolver esperança a uma cidade, seja Leiria ou outra.
Uma coisa é o que achamos que temos vocação para fazer, outra é a constatação de condições no terreno. Não vale a pena as declarações de apoio de última hora, como o Dr. Fernando Costa passou as duas últimas semanas a fazer quando, simultaneamente, me ataca com uma agressividade que é bem conhecida pelas pessoas, ao longo de uma década.
Seria não ter vergonha aceitar um apoio desta natureza. É aquilo que as pessoas não gostam de ver na vida política, que é durante um período combatem-se mas depois esquecem-se facilmente. São actos de hipocrisia política que não tolero e não quero para mim.
Acho que a política também tem que ser um exercício de liberdade e não um exercício de dependência. Prefiro não fazer carreira autárquica, candidatar-me a cargos, desafios políticos tendo por base esta realidade.
Não tem que ver com a comissão política distrital, com os militantes ou o partido, tem que ver com o facto do presidente da distrital pregar nos últimos anos, e ainda recentemente à Gazeta das Caldas, um conjunto de comparações e críticas objectivas ao município de Óbidos, algumas delas que não correspondem à realidade, que são mais que próprias de um militante do PSD com alguma inveja por Óbidos ou de um dirigente socialista.

GC – Quando é que essa perseguição política começou?
TF –
Mas a perseguição não é só a mim. Quando o Dr. Fernando Costa vem dizer que a Câmara de Óbidos está cheia de dividas, desvalorizando o nosso trabalho e o modelo de desenvolvimento, dizendo coisas que são falsas, põe em causa, inclusivamente, todo o trabalho de gestão financeira do vice-presidente [Humberto Marques], que se sabe que é apontado como uma das possíveis escolhas para ser candidato à Câmara de Óbidos.
Um dirigente distrital tem que ter, no mínimo, a responsabilidade de não por em causa o sucesso eleitoral de quadros do seu próprio partido. Fazer o contrário parece-me uma irresponsabilidade política muito grave.

“a democracia é aceitar as diferenças uns dos outros”

GC – Como justifica esta posição por parte do presidente da distrital de Leiria do PSD?
TF –
Gostava de perceber isso, porque para mim a democracia é aceitar as diferenças uns dos outros. O Dr. Fernando Costa é diferente como pessoa, autarca e político e nós temos que aceitá-lo, ele devia fazer o mesmo. Acho que há alguma dificuldade na aceitação democrática da diferença de estilo e na diferença das pessoas.
Não se vai dizer que os outros são diferentes mas que endividam as Câmaras, quando temos um resultado em termos de dívida de 21% do total das receitas da autarquia. Quando se acusa o município de Óbidos de ter a água e o saneamento mais caro, sabe-se que isso não é verdade.

GC – Mas Óbidos não é uma autarquia endividada?  É uma critica que o presidente da Câmara das Caldas lhe faz, assim como a oposição.
TF –
Ver o Dr. Fernando Costa alinhado com a oposição socialista é uma coisa que me entristece. O que as contas revelam é um peso de 21% da divida e uma organização que tenha um peso relativo destes no total da sua capacidade de gerar receitas não é nada preocupante.
Gostava de saber é porque o Dr. Fernando Costa não diz que a Câmara de Óbidos tem fundos disponíveis desde que saiu a Lei dos Compromissos (que impede um município de lançar obras caso não tenha capacidade financeira para as assegurar).
Porque não explica que o município de Óbidos acabou de lançar mais de 10 milhões de euros de obra porque a lei o permite? Talvez porque a saúde financeira não é essa de que ele fala.

GC – A saúde financeira do município está boa?
TF –
Claro que está. Os números revelam é uma liquidez geral de 208%, um endividamento de 21,17% e uma autonomia financeira de 78,8%. Um município que tem esta capacidade financeira de arranjar as suas receitas e que tem um peso tão relativo na dívida quando comparado com outros não é, de todo, um caso preocupante.
Nunca acusei nenhuma autarquia pelos seus resultados financeiros ou pela forma como é gerida pois não acho, de todo, que seja uma boa filosofia. É um estilo que não é o meu e onde eu não me reconheço.
Outra coisa é dizer coisas que não são verdade. No que diz respeito à água, para todos os escalões (5, 10 e 15 metros cúbicos) a Câmara de Óbidos tem sempre preços mais baixos do que a Câmara das Caldas e há aqui uma insistência em dizer uma mentira para se tornar verdade. Temos os números, não basta atirar areia para os olhos das pessoas.
A Câmara de Óbidos para além de fazer obra e ter investimento, gere bem e tem uma capacidade de ser contida na sua estrutura de gestão que não merece este tipo de ataque.
Não tenho nenhuma rivalidade com as Caldas que sempre foi para Óbidos a sua cidade. O que acontece de bom nas Caldas nós vibramos, o que acontece de mau preocupa-nos e, muitas das vezes, atinge-nos porque a nossa população tem muitos empregos nesse concelho.
É uma relação muito próxima, muito emotiva e que deveria abrir campo para uma maior proximidade que, infelizmente, não tem sido fácil de implementar.
Acho que a região beneficiou muito com aquilo que fizemos em Óbidos nos últimos anos e isso tem que ser valorizado. A opinião pública valoriza isso e exerce uma pressão, que acontece de forma muito acentuada nas Caldas. Quero tentar explicar essas declarações infelizes à luz dessa pressão permanente que o eleitorado exerce também sobre dirigentes do concelho vizinho, mas que é natural e que felizmente nos outros concelhos não há a mesma reacção.
Temos dado um contributo para que o território do Oeste seja mais forte e devíamos ser olhados com simpatia e não com contestação.

GC – Como caldense, e porque está a terminar o seu último mandato em Óbidos, seria possível candidatar-se às Caldas e criar novas sinergias com Óbidos?
TF –
Quem quer ser candidato a uma Câmara só por ser basta recolher uns  apoios, apresentar uma candidatura e se tiver mais votos é eleito, mas querer mudar uma cidade ou um concelho é completamente diferente. É preciso que haja um aceitar dessa liderança, que haja um envolvimento nesse trabalho de uma forma alargada e uma paz de espírito e é isso que não acontece.
Há 12 anos Óbidos era uma espécie de patinho feito do sul do distrito, era um concelho com um castelo muito bonito mas politicamente irrelevante. Essa distracção chegou ao ponto de aceitarem que um jovem de 29 anos fosse candidato e pudesse fazer o que quisesse. E foram essas condições de poder implementar uma estratégia, envolvendo os outros, mas escolhendo os candidatos e assumindo a liderança do território, que nos permitiram dar a volta.
Há cidades que estão a entrar numa curva muito complicada e que daqui por 10 anos terão problemas acentuadíssimos, se não forem corrigidos. Hoje quando olho para o nível de investimento privado que está a acontecer numa cidade imagino, mais ou menos, qual a dinâmica dos novos negócios que se podem gerar a partir do momento em que o investimento está a acontecer. Eu sinto que para nós conseguirmos devolvermos uma nova confiança às pessoas é fundamental que haja um clima de uma fortíssima estabilidade, confiança e de espírito de amizade entre as pessoas.
O Dr. Fernando Costa ficou muito preocupado quando eu disse que não tinha condições para ser candidato e falei na Câmara das Caldas, até porque as pessoas me falam nisso. Mas começa logo a atacar-me, a  dizer que prejudiquei a cidade das Caldas, como se conseguisse manipular a opinião pública dizendo isso.
Eu estou a dizer o contrário, o Dr. Fernando Costa pode ficar sossegado, pode até fazer uma gestão interna dentro do seu partido, de modo a que não termine em guerra. Também há uma coisa que eu nunca fiz, publicamente nunca diminui ou desvalorizei o trabalho de um vereador da minha equipa. Todas as pessoas que são escolhidas por mim, a responsabilidade do que fazem, para o bem e para o mal, é minha.
Também é importante referir que quando me dirigi a Fernando Costa foi sempre na qualidade de presidente da distrital, não comento o seu exercício autárquico. Quanto muito digo que foi durante muitos anos um excelente presidente de Câmara, acho que nos últimos anos podia ter feito mais.
Não me envolvo na apreciação de trabalho de colegas, mas há uma coisa que eu não gosto de ver, que é vereadores como o Hugo Oliveira a ser tratado desta forma publicamente pelo seu presidente de Câmara, quando o Dr. Fernando Costa é presidente da distrital e lhe deve essa presidência.
O Dr. Fernando Costa nunca teria sido presidente da Distrital do PSD sem o apoio de Hugo Oliveira e uma maciça colaboração da juventude das Caldas da Rainha. E esquecer isto pouco tempo depois das eleições terem decorrido é atingir a sua base eleitoral de apoio.
Fernando Costa está à vontade porque sabe que não há eleições para os órgãos internos do partido antes das autárquicas, mas há uma gratidão e um reconhecimento que a mim me custa ver estar a ser posto em causa publicamente.

GC – Considera que é uma guerra interna com autarcas do PSD?
TF –
É uma guerra com muita gente, é disparar para todo o lado da forma, por vezes, mais inconsequente possível. Acho que isso não é positivo e após tantos anos de vida politica já era altura de haver um bocadinho de moderação e tentarmos proteger os quadros do próprio partido, independentemente de estarmos de acordo ou em desacordo.
O que estou a dizer é típico de quem não está com medo de represálias. Eu não tenho medo do Dr. Fernando Costa, mas também não estou para aturar o ambiente de guerrilha, crítica e de provocação permanente.
Veja o suicídio que era eu estar a tentar implementar um projecto numa cidade e ter o presidente da distrital a tripudiar.

GC – Mas assim a sua passagem pela política acaba por estar limitada pela figura de Fernando Costa, enquanto presidente da distrital.
TF –
Eu digo exercer cargos desta natureza no distrito de Leiria. A política é muito mais do que isso.

GC – Nesta conjuntura, com o Dr. Fernando Costa à frente da distrital de Leiria do PSD, não se vai candidatar a qualquer autarquia do distrito?
TF –
Não. O Dr. Fernando Costa na mesma entrevista pode criticar-me e dizer que me apoia, eu não faço essa incoerência. Se uma pessoa na rua me perguntar como é que pude aceitar o apoio de última hora de uma pessoa que passou a última década a combater-me, tenho que ter a cabeça erguida e saber responder-lhe. Saí de todos os cargos do partido, não o confrontei e ele não o desmente publicamente.
Posso fazer qualquer coisa na vida, não faço é este trabalho de dependência. Eu teria alguma dificuldade em chegar daqui a muitos anos e dizer que só fiz politica.
O Dr. Fernando Costa aproveita uma entrevista até para me atacar, acho que de uma forma rasteira, numa perspectiva da minha vida privada, familiar e empresarial. Acho que temos que valorizar cada vez mais aqueles que têm capacidade para arriscar, investir e criar emprego, sobretudo em actividades que são altamente empregadoras.
Não aceito que as pessoas venham agora dizer que o modelo de vida é ficarmos dependentes da vida política e depois sujeitarmo-nos a estas hipocrisias todas que sabemos que a dominam. Ter um espírito livre paga-se.

GC – E o preço está a ser alto no distrito?
TF –
Há um líder distrital que por ser a pessoa que é não tem condições para entusiasmar candidatos a candidatarem-se a Câmaras, candidatos que possam ganhar. Quero ver como é que alguns dossiers vão ser resolvidos.

“já recebi convites de cidades muito maiores que as Caldas da Rainha”

GC – Caso não fosse Fernando Costa presidente da distrital continuaria a sua vida política no distrito?
TF –
Pensaria seguramente de maneira diferente. Não são as condições únicas, mas é uma condicionante fortíssima e à partida nem vale a pena explorar as outras, que têm a ver com a verificação de condições internas, questões do próprio concelho, que tipos de recursos podemos activar.
Hoje em dia ser autarca é um acto muito difícil porque estamos cercados de uma legislação e de um conjunto de procedimentos que torna as decisões e a vida política mais curta, diminuiu-se a autonomia do poder local.
Há uma Lei dos Compromissos, que é muito forte e limita o stock da dívida dos municípios. Considero que é necessário baixar a quantidade de dívida que existia no pais, e as autarquias não podiam fugir a isso, mas a fórmula como a lei desenhou o atingir desse objectivo corta claramente situações de autonomia de decisão.
Há uma coisa que me choca que é sentir que há pessoas em determinadas cidades e concelhos que pararam de ter projectos inovadores. Deixaram de apresentar novas ideias para continuar com as velhas e a falar das mesmas coisas do passado, e acham que gerir um concelho é baixar ou aumentar impostos.
Mas posso dizer que já recebi convites de cidades muito maiores e politicamente muito mais importantes do que as Caldas da Rainha.

GC – Já disse que não tem condições objectivas para se candidatar, mas Caldas da Rainha seria um desafio para si?
TF –
Não vou ser candidato da Câmara das Caldas. Uma coisa é ser eleito e tenho a convicção de que o seria, outra coisa é conseguir ter condições para fazer um bom trabalho e isso teria que avaliar.
Uma das coisas que tem pesado é a ligação afectiva que temos ao território. Depois de ter nascido e estudado nas Caldas, claro existe uma ligação emocional e afectiva.
Hoje só não construímos esse bloco porque não houve nunca disponibilidade para o fazer. Não quero imaginar o que seria Caldas da Rainha e Óbidos a puxar juntos para o mesmo lado. É uma realidade que acho que deve ser posta em prática pelos futuros presidentes de Câmara e acho que vai acontecer.

GC – E vai acontecer porque os próprios autarcas têm essa sensibilidade ou porque a troika obriga isso numa lógica de território?
TF –
Não é por razões formais de fusão. Quando defendia a construção de um novo hospital nas Caldas foi porque se há cidade nesta região que tem na sua matriz genética, na sua força e realidade contemporânea, as questões da saúde é as Caldas da Rainha. E acho que essa era uma grande alavanca de desenvolvimento e Óbidos também beneficia muito das Caldas da Rainha liderar uma área muito importante do ponto de vista social e económico para o desenvolvimento territorial.
Defendo uma aposta conjunta nas indústrias criativas e nas áreas da saúde como dois grandes pólos que seriam geridos de forma comum. Acho que o futuro das Caldas ou de Óbidos não passa por ter mais este ou aquele museu, que por mais importância que essas obras tenham na estratégia da cidade, mas são sempre instrumentos para uma estratégia maior.
Pessoas que comparam parques tecnológicos a zonas industriais não entendem sequer do que se está a falar, são visões sobre a problemática de desenvolvimento completamente diferentes. Nós vamos lançar os edifícios centrais no Parque Tecnológico [que deverão estar concluídos no final do Verão de 2013] que vão permitir a instalação de dezenas de empresas e, naturalmente, dar enormes contributos às Caldas e a Óbidos.
Quem faz um parque tecnológico a dois quilómetros das Caldas e a dois quilómetros da vila de Óbidos está mesmo a pedir que este pêndulo de relação forte entre a vila e a cidade se concretize. A minha esperança é que no futuro os executivos ponham esse bairrismo de lado.

GC – Acha que terá que continuar a haver uma afirmação dos municípios, não deve haver uma lógica territorial para ganhar escala?
TF –
Há imensos projectos que correm dentro da associação de municípios (OesteCim) que sabemos quem é que nunca concorda e os paralisa.  Vou dar-lhe um exemplo: no passado os presidentes da Câmara das Caldas e de Óbidos fizeram um acordo intermunicipal para fazer furos de captação de água. Mais tarde, sem que o município de Óbidos lhe tivesse cobrado a sua percentagem nas receitas da venda dessa água, o município das Caldas veio cobrar.

GC – Mas o presidente da Câmara diz que ainda lhe deve cerca de 500 mil euros.
TF –
Dívida essa da qual eu não tenho nenhuma responsabilidade. Ao dizer que existe a dívida, também deve dizer que desde o dia em que sou presidente da Câmara introduzimos um processo novo, até para haver mais entendimento, que foi pagar a água.
Dizer que eu como presidente a primeira coisa que fiz foi atacar as Caldas é esquecer que ainda eu não tinha tomado posse houve uma ameaça pública do presidente da Câmara das Caldas que iria cortar a água à Câmara de Óbidos se não pagasse uma dívida de 20 anos. O que tive que fazer no primeiro mandato foi muito investimento para ter captações próprias e não estar muito dependente deste tipo de decisão.
Acho a lei da limitação dos mandatos boa. Pode retirar muitos autarcas que têm capacidade de puxar pelas suas terras, mas também retira aqueles que cristalizaram as suas posições e parece que são donos das suas terras.

GC – No seu caso, está cá há 12 anos, acha que já cumpriu o seu trabalho ou, caso não houvesse limitação de mandatos, ainda tinha mais que fazer em Óbidos?
TF –
Há algumas dimensões do trabalho que acredito que fazem muita falta a Óbidos e acredito que vão ter continuidade. Estaria tentado a dar o meu contributo na estratégia de alargamento nas áreas económicas no nosso concelho e atracção da classe criativa, e a nível social na introdução de uma nova pedagogia em escola pública.
São duas zonas de trabalho que me aliciam muito e, nessa medida, tenho pena porque gosto muito do cargo de ser presidente de Câmara.
Hoje tenho uma gestão muito mais da definição dos objectivos, de acompanhamento da execução dos processos e não tanto uma necessidade de olhar para pequenas questões que são fundamentais, mas que temos que descentralizar. Trabalho num modelo de descentralização, os meus vereadores agem com total confiança do presidente da Câmara. Eles não vão a reuniões e dizem que vão falar comigo para depois tomarem uma decisão, lá estão capacitados para decidir.

GC – Já teve convites de vários locais para se candidatar nas próximas autárquicas. Há algum em especial que esteja a ponderar?
TF –
Está tudo em aberto. Há várias coisas a acontecer, cada coisa tem o seu tempo. Neste momento sou presidente da Câmara de Óbidos e tenho que estar concentrado nesta autarquia e ainda há tempo para esse assunto ser apreciado e decidido.
O PSD não pode pensar que é dono da maioria das Câmaras, tem que pensar que tem que estar à altura das responsabilidades, desafios e confiança dos eleitores e para isso tem que investir muito na qualidade dos seus autarcas, como de outros cargos, no futuro, para não cair em descrença. No meu caso não vale a pena estar a perder tempo. Há razões muito fortes e sinto que escondê-las era um acto de hipocrisia da minha parte.

GC – Pensa levar o mandato até ao fim na Câmara de Óbidos?
TF –
Sim. Já muitas vezes me acusaram do contrário e ainda aqui estou.

“Tenho uma dificuldade em aceitar aquilo que não é seriedade política”

GC – Em Óbidos quando estava na oposição teve um papel bem activo na contestação a Pereira Júnior. Agora tem dificuldade em aceitar uma oposição mais viva da parte do PS?
TF –
Não acho isso. Tenho uma dificuldade em aceitar aquilo que não é seriedade política. Isso eu tenho. Quando dizem, por engano, uma coisa que não é verdade isso não me irrita, mas admito que tenho dificuldade em lidar com situações em que há intencionalmente uma vontade de deturpar  ou insistir numa coisa que não é verdadeira, mesmo depois dela ser explicada.

GC – Um dos temas em que é acusado violentamente pela sua oposição e também pelo Dr. Fernando Costa é do despesismo da Câmara de Óbidos, da contratação de funcionários em número excessivo e insustentável em termos financeiros. Que tem a dizer a isto?
TF – Isso cai bem junto dos eleitores que menos acompanham isso, mas há uma coisa que rejeito. Por exemplo ao nível dos impostos Óbidos devolve 4% dos valor aos munícipes enquanto que as Caldas devolve 2,5%. No município de Óbidos não cobramos derrama, nas Caldas as empresas têm que pagar 1%.
Também na água, resíduos e saneamento os valores são todos mais baixos mas, no entanto, aquilo que se criou junto da opinião pública é o contrário, que em Óbidos é mais caro e Caldas mais barato. Isto é criar uma simulação, uma inversão completa da realidade.
Podemos dizer que temos hoje condições para baixar ou manter o IMI no próximo ano aos novos prédios urbanos no concelho de Óbidos. É uma situação que está a ser estudada. Um município que está nestas condições respira saúde financeira, até porque se nós não tivermos fundos disponíveis nem os ordenados podíamos pagar, de acordo com a Lei dos Compromissos.
Não precisamos de violar a lei não só para continuar a assegurar o corrente como para fazer investimentos estratégicos, como é o caso da requalificação da Escola Josefa d’Óbidos e da construção dos edifícios centrais no Parque Tecnológico.
Acho que criou-se aquela ideia de que é mais fácil acreditar que há alguma coisa errada num modelo bem sucedido do que no modelo em si, pelo que a estratégia tem sido desvalorizar o trabalho que temos feito.
Nunca vou dizer publicamente, porque não tenho razões para o fazer, que fiz uma piscina que não era necessária. Nunca construímos elefantes brancos no concelho, as nossas maiores obras são os complexos escolares, de que todos usufruem.

GC – A Educação  foi a sua paixão e, inclusive, desenhou um parque municipal contra a vontade do ministério como diz. Está a valer a pena esta aposta para o concelho?
TF –
Considero que sim, primeiro porque os resultados escolares subiram em todos os níveis. Passámos a ter secundário, duplicámos o número de estudantes no concelho de Óbidos, passámos a ser até um local que recebe alunos de outros concelhos, quando antes acontecia o inverso.
As famílias, que só iam às escolas quando havia um problema, passaram a estar muito mais próximas e vão, com orgulho, ver o trabalho dos filhos e acreditam que temos uma visão, em termos pedagógicos, que queremos implementar nas escolas. Tentar recriar a escola publica é uma façanha difícil e complexa mas que acho que vale muito a pena fazer num país como o nosso, habituado a modelos centralizadores na educação.

GC – A despesa que a Câmara tem com o pessoal é sustentável?
TF- Perfeitamente sustentável. Quando se quebram receitas em algum lado temos que moderar e cortar em algum tipo de despesas.
Apesar de ser tempo de contenção, se temos dinheiro que é praticamente dado, é praticamente um crime de má gestão não aproveitar. Estamos a falar de fundos comunitários, na casa do 85% para os edifícios centrais do Parque Tecnológico e muito perto dos 100% para a nova escola Josefa d’Óbidos.

GC – Que problemas é que ainda existem em Óbidos, do que é que têm necessidade?

TF – Acho que acima de tudo precisamos de garantir que a economia absorve a necessidade das pessoas terem um emprego. A aposta no turismo teve muito que ver com isso. Um dos empreendimentos do concelho veio há 15 dias pedir para aumentar a recolha do lixo porque há muita gente a ocupar as casas turísticas, o que também nos mostra que construir um pólo turístico em Óbidos foi uma decisão acertada.
A crise e o sector financeiro cortaram a possibilidade de construção de casas e empresas no Parque Tecnológico, mas Óbidos atravessou um Verão muito interessante do ponto de vista económico, com os hotéis cheios. Há hoje centenas de pessoas que trabalham graças ao fluxo turístico que estamos a ter.
Não aceito que seja uma boa política em tempos de crise a oposição criticar os investidores do concelho. Penso que temos que ser exigentes com eles mas não podemos passar um determinado limite, porque as pessoas arriscam e não podemos afastá-las. Hoje em dia quem cria emprego é aquele que mais precisa de ser valorizado e estimulado.

GC – A primeira fase do Parque Tecnológico de Óbidos não se desenvolveu no prazo esperado. O que correu menos bem? O que está a ser feito para atrair empresários e valor a Óbidos? Falta alguma massa crítica que lhe podia ser dada se o parque fosse Óbidos/Caldas ou reunisse mais sinergias a nível do Oeste?

TF – Quando lançámos o Parque Tecnológico criámos um pequeno loteamento, que infra-estruturámos e vendemos alguns lotes. Vimos que essas empresas ganharam apoios financeiros para a construção mas que muitas delas decidiram não avançar porque não tinham garantias de recuperação do investimento ou até da obtenção dos capitais próprios que eram exigíveis. Então, acelerámos a construção dos edifícios centrais e eles podem ocupar os espaços arrendando-os. Trata-se de quatro mil metros quadrados de espaços que dão para mais de uma centena de empresas.

GC – E está a ter aceitação?
TF – Claro que sim. Ainda não começámos a comercializar, mas quem faz em pouco mais de dois anos mais de 60 contratos dentro do projecto ABC tem aqui um indicador de que criando melhores condições pode aumentar o número de contratos.
Conseguimos, do zero, começar a criar um contexto de centralidade para as empresas do sector das indústrias criativas. Uma das empresas mais conceituadas do Brasil, a Sotwell, criou um núcleo em Óbidos por acreditar no projecto e que a partir daqui pode conquistar mercados na Europa que são importantes para o desenvolvimento da empresa. Claro que temos que ir buscar empresas a Portugal mas também ao Brasil, a questão da língua é fundamental, estamos a preparar roadshows no Brasil exactamente para as captar, mostrando as condições que apresentamos localmente.
Daqui a seis meses vamos começar a fazer a comercialização mas uma coisa eu garanto, serão condições únicas em Portugal para empresas e para pessoas que trabalham muitas vezes sozinhas, sem contexto de rede e apoios, passarem a estar num espaço com todas as condições, até de co-working.
Este tipo de estratégia pode ser perfeitamente alargado às Caldas da Rainha, Peniche e outros sítios, mas é preciso que haja um entendimento muito forte sobre o que é isto do fomentar o surgimento de negócios no território.

“a extinção de municípios abriria uma guerra civil”

GC – O acordo com a troika definia como objectivo a fusão de municípios, tendo o actual governo se limitado a propor fusão de freguesias. Considera que também os municípios se devem agregar, aumentando assim o território e população, ou devem continuar a ter autonomia?
TF – Mais uma vez vou dizer o que é politicamente incorrecto porque neste momento o que é interessante é dizer que o melhor é a fusão, para se poupar. Eu não acredito nada nisso, cada Câmara é diferente.
Podem fazer-se projectos supra municipais para se atingir isso da mesma maneira. Óbidos nunca teria atingido o sucesso que atingiu se tivesse metido num quadro decisório muito maior.
No futuro não digo que não, mas da maneira como as coisas estão eu acho que cada câmara é uma câmara e tem que haver uma avaliação não pelo número de habitantes mas pelo investimento per capita e pela dinâmica económica gerada.
Acho que o governo tem estado muito bem ao recusar a extinção de municípios, isso abriria uma guerra civil, e nós autarcas podemos sempre fazer coisas, desde que haja boa vontade.

GC – Por causa da transferência do aeroporto da Ota para a margem Sul acusou o governo de Sócrates e deixou de participar nas reuniões com o ministro das Obras Públicas. Não acha que exagerou dado que foi o seu partido que mais empurrou o anterior governo para esta solução?

TF – Na altura o que era importante não era afrontar o ministro, mas o facto de ele ter-nos enganado. Eu era organizador do Congresso do Oeste em Alcobaça em que foi tudo articulado para o governo aproveitar aquele palco na região para anunciar aquilo que estava decidido. O ministro [Mário Lino] veio e anunciou publicamente a construção do aeroporto na Ota, mas poucas semanas depois disse exactamente o contrário e mandou suspender a sua decisão, desvalorizando o compromisso público que tinha assumido. O que quis dizer foi que não iríamos a lado nenhum, pois não podemos confiar em quem fez isto desta forma.
Aliás, os meus colegas com o passar do tempo perceberam que todo aquele pacote não passou de uma ilusão, fomos todos enganados na região.

GC – Em relação às posições do seu partido nunca se lhe ouviu nenhuma crítica sobre este assunto.
TF – Se há coisa de que não posso ser acusado é de proteger o meu partido. Comecei uma “guerra” contra o meu partido quando era dirigente da Comissão Política Nacional e o ministro das Obras Públicas, Carmona Rodrigues disse, após ter tomado posse, que o aeroporto da Ota não era uma prioridade. E trouxe-o à região, nomeadamente ao Bombarral, e pressionámo-lo a desfazer o que tinha dito publicamente.
O primeiro-ministro Durão Barroso disse-me numa reunião da Comissão Politica para eu defender sempre a minha região em primeiro lugar, não o partido. Acho que essa tem que ser a postura dos políticos.

GC – Teria feito o mesmo com um ministro do PSD?
TF – Teria feito a mesma coisa. Carmona Rodrigues defendia o alargamento do aeroporto da Portela.
Não quero ser complacente com ninguém do meu partido nem pregar nenhuma moral, mas acho que temos que ter uma posição de grande seriedade.
Mas o PS também nos tratou bem. O primeiro ministro José Sócrates veio ao concelho de Óbidos, precisamente para visitar os resorts que hoje deputados do seu partido põem em causa com algumas perguntas e requerimentos no parlamento. Tivemos sempre uma total lisura no relacionamento com o governo socialista.

GC – Falou em defender a região. Uma das críticas do presidente da Câmara das Caldas foi o facto de lhe ter querido roubar a escola de Hotelaria e Turismo, até que houve a decisão mais salomónica de a dividir pelos dois concelhos.
TF – Mas essa escola nunca esteve prevista para Óbidos, é uma falácia dizer que foi retirada às Caldas.
Óbidos é a centralidade turística da região, daí a defesa da escola. Não se tratou de roubar nada, tratou-se de ter perto dos hotéis e dos principais investidores uma estratégia de formação. O Dr. Fernando Costa é que quando se apercebeu que Óbidos estava a ter apoios fortes nesse sentido começou a querer dar uma utilidade à UAL, que já estava a definhar como projecto universitário.
Considero que as Caldas está a ser altamente beneficiada pelas reservas e procura das pessoas por um destino que é Óbidos. No booking, que é o principal motor de buscas, faz-se uma pesquisa por Óbidos e aparece o Sana, que é o principal hotel das Caldas, pelo que o Dr. Fernando Costa devia era pensar como podia vender melhor aspectos da sua cidade face a esta estratégia que foi implementada.

Falta de apoios adia realização do Festival de Ópera
“Nós não cobramos impostos altos para fazer festivais como de uma forma muito infeliz nos acusam”, afirma Telmo Faria, destacando que os eventos que são feitos em Óbidos têm entradas pagas.
O autarca diz não perceber a “dor de cotovelo” relativamente à sua forma de gestão que, acrescenta, é bem sucedida, como o comprova por exemplo o Mercado Medieval onde este ano fizeram mais de 2,5 milhões de euros de receitas.
Este ano não se realizou o Festival de Ópera por questões de calendarização (Mercado Medieval estendeu-se até meados de Agosto) mas, sobretudo, porque este ano o município não teve apoios da administração central para a sua concretização.
A autarquia está já a negociar a sua realização no próximo ano, mas sem “condições objectivas para garantir a sua qualidade é melhor não o fazer”, diz Telmo Faria, acrescentando que se trata de um evento caro e que em “tempos de dificuldade temos que cortar em alguma coisa”.

Fátima Ferreira
fferreira@gazetadascaldas.pt