Jorge Varanda contra Carlos Sá, Fernando Costa e Paulo Macedo

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O ex-administrador do Centro Hospitalar das Caldas Jorge Varanda, que exerceu funções nas Caldas durante a década de 80, fala desabridamente contra os que considera serem responsáveis pelo descalabro do termalismo caldense. A Câmara Municipal, o Ministério da Saúde e o Conselho de Administração do CHO são alvo de contundentes críticas.
O especialista defende a necessidade da criação uma estratégia para o Hospital Termal Rainha D. Leonor que “poderá dar resultados dentro de cinco ou seis anos” e não aceita que o Ministério da Saúde se queira livrar de uma unidade tão importante para o país, enquanto motor de relançamento do termalismo que pode cativar turistas estrangeiros e trazer poupanças nos gastos deste sector.

Em declarações à Gazeta das Caldas, Jorge Varanda salientou a necessidade de existir transparência em todo este processo, reclamando uma atitude mais responsável por parte de todas as entidades envolvidas.

Perante as exigências do Delegado de Saúde Regional para a reabertura do Hospital Termal, o especialista, que ressalva o facto de não ter lido a notificação daquele responsável, salienta que “com gestores eficazes e, dada a extrema urgência, os prazos podem ser minimizados”. É que, como sublinha, “cada dia de fecho, é saúde e dinheiro que se escoam”.

Jorge Varanda espera que a tomada de posição na última reunião da Assembleia Municipal das Caldas seja o início de um novo ciclo “transmitindo ao Ministério da Saúde um “basta” que leve os responsáveis a arrepiar caminho e a respeitar o Hospital Termal, as Caldas da Rainha e as pessoas que necessitam de nele se tratar”.

O ex-administrador também critica a forma como está a ser feita a reorganização hospitalar no Oeste. “Aquilo que está a ser feito é o contrário do que eu aprendi em termos de gestão hospitalar. Há um processo de alienação do corpo clínico. Estão a ser subalternizados e, por vezes, não têm condições para fazerem o seu trabalho”.

Também em relação a esta questão, não percebe como é que o poder político local não soube “defender melhor as Caldas”, tendo em conta que este até é do mesmo partido que está no poder. “As cidades à volta das Caldas não tiveram dúvidas e usaram a sua influência política para terem hospitais novos”, afirmou, dando o exemplo de Leiria e Santarém.

Na sua opinião, a estratégia que está a ser seguida vem do tempo do ministro da Saúde, Correia de Campos, “cercando Lisboa de hospitais”. Isso fez com que perto de Torres Vedras tenham sido construídos “dois monstros hospitalares” (Loures e Vila Franca de Xira), comparados com a dimensão da unidade daquele concelho. “Isso colocou ao Hospital de Torres Vedras um problema de sobrevivência, a qual está a ser feita à custa do Hospital das Caldas. O poder (do CHO) está a concentrar-se em Torres”, denuncia. Jorge Varanda não percebe como é que Caldas tem estado a perder serviços hospitalares sem que haja alguma reacção.

Para Jorge Varanda, não faz sentido que o presidente do Conselho de Administração de um centro hospitalar seja uma escolha política e acusa Carlos Sá de prejudicar Caldas da Rainha.

Desde a sua nomeação para o agora extinto Centro Hospitalar do Oeste Norte que o ex-administrador tem essa opinião. “Ele tinha um ‘déficit’ financeiro, mas há muitas formas de atacar os déficits’. Qual seria a encomenda que ele trazia de Lisboa para quando veio para as Caldas?”, pergunta.

“Houve muitos processos disciplinares porque é típico de quem entra assim numa instituição, e houve muita gente que foi afastada”, acusou também.

Entre os problemas causados por esta gestão, aponta a falta de manutenção do sistema de ar condicionado do bloco operatório que terá levado à avaria deste equipamento. “Há um risco grande que pode levar ao surgimento de infecções e até à morte das pessoas que são operadas”, alerta.

“Há três ou quatro milhões de doentes que podem ser tratados nas Caldas”

O primeiro passo para o relançamento do termalismo terá mesmo que passar pela criação de um sistema seguro de adução e distribuição de água, para evitar contaminações. Em paralelo será necessário autonomizar o Hospital Termal através de um modelo de gestão. “Pode ser uma fundação, mas também poderia ser uma misericórdia com uma base nacional. Tem é de ser algo que sirva a população e que respeite o Hospital, nos valores com que foi criado”, defendeu.

O projecto implica a criação de um Hotel Termal nos Pavilhões do Parque “eventualmente com água termal nos quartos e outras componentes de tratamento próprias de uma estância termal moderna”, sem esquecer o desenvolvimento do Hospital (com relevo para a Reumatologia e a Medicina Física e de Reabilitação). Tendo em conta a qualidade dos Pavilhões e a intenção de o “salvar”, Jorge Varanda pensa que é melhor ser utilizado numa actividade económica que traga benefícios à cidade.

“O Hospital Termal pode ser uma fonte muito importante de criação de riqueza para as Caldas e de saúde e bem-estar para população portuguesa”, defende.

Para Jorge Varanda, a concessão exige concurso público para evitar “um qualquer arranjo para amigos”.

No entanto, salienta que o Ministério da Saúde “não pode livrar-se do Hospital Termal de um momento para o outro”. Tem que existir um período que permita esta unidade retomar o seu crescimento e reequilibrar-se economicamente. Jorge Varanda lembra que foi a partir do património do Hospital (legado da Condessa de Bertiandos) que foi possível construir o actual Hospital Distrital e que durante muitos anos as receitas das termas serviram para equilibrar as contas do Centro Hospitalar.

Na sua opinião, há a possibilidade de incluir o Hospital no processo de decisão de tratamento para que médicos e doentes possam optar pelo Hospital Termal. “Há em Portugal três ou quatro milhões de doentes que podem ser tratados beneficamente aqui nas Caldas da Rainha. Só por preconceito e incapacidade é que não conseguem trazer para aqui uma ínfima parte desses doentes”.

É por isso que entende que o Ministro da Saúde poderá estar a ser mal influenciado nas suas decisões. A composição da equipa ministerial também é problemática: “o ministro é um bom ‘controller’ financeiro, mas isso não faz dele um bom ministro da Saúde. Como não tem, no resto da equipa, ninguém que reequilibre essa limitação, toma atitudes como esta relativamente ao Hospital Termal”, referiu.

Termalismo faz concorrência à indústria farmacêutica

O ex-administrador hospitalar confessa-se como sendo um fã do termalismo, pelas vantagens que traz no tratamento das doenças na área da reumatologia, doenças respiratórias e reabilitação física.

Em 1997, com o apoio da Fundação Gulbenkian, fez um estágio na Clínica Mayo (uma das melhores organizações de prestação de cuidados de saúde nos EUA, sem fins lucrativos) onde, a par da mais avançada tecnologia médica, há uma grande aposta no bem-estar e medicinas alternativas, desde que medicamente comprovadas, como as que são praticadas no termalismo. “Há, todavia, uma corrente anglo-saxónica que abandonou o termalismo, mas nós não somos anglo-saxões e não temos os seus recursos, nem a indústria farmacêutica que eles têm”, disse.

Jorge Varada salientou que o termalismo, em alguns sectores, é considerado como concorrencial para a indústria farmacêutica. “Se os tratamentos termais reduzem o consumo de medicamentos, são considerados como uma concorrência”.

Para Jorge Varanda, o Ministério da Saúde continua a ter que cumprir a vontade da Rainha D. Leonor, que tudo fez para que o hospital fosse autónomo, proporcionando-lhe rendimentos para se auto-sustentar e uma vila, hoje cidade para o envolver. Antes dos problemas que surgiram com a contaminação da pseudomona e o encerramento do Hospital durante três anos, este, apesar de não ter autonomia financeira, gerava receitas superiores às despesa.

Jorge Varanda sugere que os responsáveis releiam a carta de doação da Rainha D. Leonor e que respeitem a sua vontade, mantendo a sua tradição no que respeita aos mais necessitados. Nesse sentido também os tratamentos termais deveriam voltar a ser comparticipados pelo SNS, o que aumentaria a acessibilidade aos tratamentos. “A subida dos preços e o fim dos subsídios aos tratamentos bloqueou o acesso às camadas sociais de mais baixo rendimento”, entende.

Para o especialista, o Ministério da Saúde deveria ter em conta o potencial de poupança do Hospital Termal, no que  respeita ao SNS, à Segurança Social e às famílias. Ao nível das doenças reumatológicas e das vias respiratórias, com os tratamentos nas Caldas “consegue reduzir-se o absentismo, as incapacidades, o uso de meios de diagnóstico e demais actos médicos e a medicação necessária”.

Se o Hospital Termal tiver uma equipa médica forte, poderá servir ainda como  bandeira de credibilidade para o termalismo nacional e captar turistas e utentes estrangeiros.

Essa é uma das razões pelas quais está contra a entrega do Hospital Termal à Câmara das Caldas, defendendo um papel mais abrangente destas termas.

Por outro lado, também pensa que o ambiente de conflito entre entidades levou a que a situação chegasse a este ponto. “A um Ministério incompetente que pôs aqui pessoas incompetentes, juntou-se uma Câmara que não tem querido saber do Hospital Termal, a não ser pontualmente, quando as coisas se agravam”, afirmou.

Mudanças de governo prejudicam Hospital Termal

Para Jorge Varanda, o termalismo nas Caldas tem sofrido com as constantes mudanças nos governos de Portugal e, principalmente, no Ministério da Saúde. “Essas mudanças têm sido fatais para este hospital”, entende.

Já a estabilidade que tem havido no executivo da Câmara das Caldas, com o mesmo presidente há 27 anos, não trouxe vantagens para o processo. “A Câmara esteve entretida com outros objectivos”, considera.

Jorge Varanda não consegue perceber o teor do protocolo que a Direcção-Geral do Tesouro e Finanças (DGTF) apresentou à Câmara das Caldas para a cedência de utilização dos imóveis Hospital Termal Rainha D. Leonor e Novo Balneário, por 25 anos.

“O Hospital Termal entrou por decreto no Serviço Nacional de Saúde e vai sair por um protocolo?”, questionou, estranhando a ligeireza deste processo. Na sua opinião, nenhuma destas entidades tem o poder para retirar o Hospital Termal do SNS. “Ou há passos que não estão explicados, ou o documento é totalmente ilegal”, considera.

Em relação à cedência do Parque D. Carlos I e da Mata Rainha D. Leonor, o ex-administrador hospitalar salienta que estes fazem um todo com o Hospital e devem ser encarados como uma fonte potencial de receitas e não o contrário. “Dá ideia que se tem de instalar o caos e a partir daí já se justifica tudo. O raciocínio deve ser feito ao contrário”, disse.

Esta é uma das matérias que também preocupa o ex-administrador do Centro Hospitalar porque considera que sempre houve uma tentativa de apropriação das zonas verdes deste património termal. “Sempre se utilizaram bons argumentos, como é o caso do alargamento do Museu da Cerâmica, entre outros”, sublinhou.

Na década de 80 foi elaborado um Plano Geral para o Parque e para a Mata, pelo arquitecto paisagista, Caldeira Cabral, que tinha em vista o aumento da frequência termal para 20 mil aquistas. “Curiosamente, as Caldas não teve esse crescimento, mas isso aconteceu nas termas de São Pedro do Sul,  semelhantes às Caldas, mas bem mais longe de Lisboa”, comentou.

Nesse plano geral, o que era defendido era o alargamento dos espaços verdes e não fazer-se mais construção. A Quinta de Santo Isidro, a nascente da Mata e onde se situa parte do aquífero termal, era uma zona que Caldeira Cabral defendia como essencial para a preservação da envolvente do Hospital Termal.

Jorge Varanda desconfia que o interesse que existe à volta destes espaços verdes possa estar ligado a planos imobiliários para a Quinta de Santo Isidro, adquirida em 2003 pela empresa de construção caldense Linto & Marques. Já em 1979 havia quem defendesse uma avenida que iria atravessar a Mata e Jorge Varanda acredita que ainda há quem o queira. “Seria o mesmo que fazer uma avenida a atravessar o Central Park em Nova Iorque”, assinalou.

O facto do Plano Geral para o Parque e para a Mata nunca ter sido transformado em plano de pormenor, apesar de aprovado pelo executivo camarário de que fez parte como vereador, poderá permitir “que se faça o que se não deve naquela zona”, teme.

Pedro Antunes

pantunes@gazetadascaldas.pt“A candidatura de Fernando Costa em 1985 representava a construção civil ao poder”

Jorge Varanda foi administrador principal do Centro Hospitalar das Caldas da Rainha de Dezembro de 1979 a 1990. Nessa altura os administradores eram colocados por concurso e foi o que aconteceu a Jorge Varanda. “Era uma perspectiva muito diferente daquela que acabou por se estabelecer. Ser administrador hospitalar era uma carreira e havia objectividade na escolha”, referiu.

Licenciado em Direito e diplomado em Administração Hospitalar (pós-graduação) foi durante algum tempo responsável pelo Serviço de Aprovisionamento do Centro Hospitalar de Coimbra, antes de ser colocado nas Caldas.

Em 1982 fez parte do grupo de trabalho inter-departamental que apresentou uma  proposta de medidas para a recuperação do Hospital Termal. Segundo Jorge Varanda, já nessa altura se sentiam dificuldades perante a falta de conhecimento especializado por parte do Ministério da Saúde no que ao Hospital Termal dizia respeito. “Ainda hoje fazia sentido revisitar essas propostas”, considera.

A primeira proposta era que o Hospital Termal tivesse autonomia, mesmo que continuasse a fazer parte do Centro Hospitalar, com um orçamento próprio e que permitisse que as receitas pudessem ser reaplicadas nas próprias termas.

Em 1985, Jorge Varanda foi o candidato do PRD à Câmara das Caldas da Rainha, nas eleições em que Fernando Costa foi eleito presidente da edilidade pela primeira vez. “Passados estes anos, posso fazer o balanço daquilo que eu já achava uma linha de orientação errada para o concelho, com base na construção civil que foi levada muito longe”, considera.

A sua candidatura em 1985 acabou por surgir como última hipótese para o PRD, que em vésperas de entregar as listas ainda não tinha candidato a presidente da Câmara, mas participou como independente e numa lista de independentes.

“A única relação que tinha com o PRD era através de amigos. O general Ramalho Eanes foi meu chefe militar na Guiné”, contou. Foi também nessa altura por causa dessa ligação ao PRD, que Jorge Varanda foi convidado a rever o projecto da Lei de Bases da Saúde, da autoria de Coriolano Ferreira, considerado o “pai” da administração hospitalar em Portugal.

Na sua opinião, ao apostar-se no crescimento através de uma construção desenfreada, o modelo colidiu com a criação de uma verdadeira cidade termal. “Eu sabia que aquela candidatura representava levar a construção civil ao poder. É difícil de explicar porquê agora, mas tinha essa noção desde o princípio”, afirmou.

Nessa altura, Jorge Varanda apoiava a ideia de uma cidade termal, na mesma linha do que defendia o director clínico do Hospital Termal, Costa e Silva. Para isso, pelo menos na envolvente termal, teria que condicionar a  construção em altura, mais zonas verdes e uma forte componente cultural, de forma a fazer com que os aquistas e acompanhantes se sentissem bem.

Depois de sair da administração do CHCR, em 1990, Jorge Varanda foi Director do Serviço de Informática do Ministério da Saúde, Director-Geral dos Recursos Humanos da Saúde, administrador-delegado do Hospital Egas Moniz, passou pelo governo como adjunto do Secretário de Estado da Saúde e, depois de uma passagem pelo Hospital de Cascais, tornou-se administrador-delegado do IPO de Lisboa, entre outros cargos, até se aposentar. P.A.