Maio de 68 mudou o sentido da vida em França e na Europa

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Gazeta das Caldas
Cerca de 40 pessoas assistiram ao evento que decorreu na biblioteca municipal

Meio século depois do Maio de 1968, a concelhia socialista das Caldas convidou quatro personalidades ligadas às artes e política para falar sobre o movimento que teve lugar em França e que começou na Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris. A reivindicação mais popular foi a de acabar com a divisão entre rapazes e raparigas nos quartos dos estudantes e uma das conquistas obtidas foi a emancipação das mulheres e uma maior igualdade de género.
Na biblioteca municipal foram partilhadas visões diferentes, mas com a tónica comum de que os acontecimentos de Paris mudaram o comportamento e valores sociais e políticos da sociedade.

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Quatro convidados partilharam a sua visão do Maio de 68 numa conferência organizada pela concelhia do PS

José Rebelo, professor universitário, antigo jornalista e correspondente em Portugal do Le Monde chegou a França, seu país de exílio, em Setembro de 1968. No ar estavam ainda os “fumos de Maio” e teve a possibilidade de imaginar o movimento “a partir de todas as experiências que tive a partir de então”, recordou na palestra promovida pelo PS, na noite de 16 de Junho, na biblioteca municipal.
O jornalista mostrou a fita do tempo dos acontecimentos, começando com um artigo publicado a 15 de Março de 1968 no Le Monde com o titulo “A França está entediada” e onde o seu autor, Pierre Viansson-Ponté, dizia que o que caracterizava os franceses era o aborrecimento pois estes não participavam nas grandes convulsões que sacodem o mundo.
No mesmo texto, o especialista da política francesa dizia que os estudantes mexem e batem-se em Espanha, Itália, Bélgica, Argélia, Japão e até na Polónia, enquanto que os estudantes franceses preocupavam-se em saber se as raparigas das universidades de Nanterre e de Antony podiam aceder livremente aos quartos dos rapazes. Volvido um mês e meio verificou-se a “explosão” que abalou França e teve ecos pelo mundo inteiro, o que mostrou que “os acontecimentos sociais não se podem, sistematicamente, prever”, sintetizou José Rebelo.
O jornalista fez a cronologia do mês de Maio, que dividiu em duas partes. A primeira, relacionada com o poder na rua, tem início a 2 de Maio com a suspensão dos cursos na Universidade de Nanterre, nos arredores de Paris e depois na Sorbonne, no centro de Paris, onde se concentrou a rebelião estudantil e foram levantadas as barricadas na Quartier Latin. Seguem-se comícios, manifestações, confrontos com a polícia e barricadas nas principais ruas na capital francesa. Aos estudantes juntaram-se os trabalhadores e sindicatos, o que levou à participação de 10 milhões de grevistas e à paralisação do país. No final do mês celebraram-se acordos entre sindicatos e governo, que se traduziram na subida dos salários, redução do horário de trabalho e melhoria do exercício dos direitos sindicais nas empresas. Seguiu-se a dissolução da Assembleia Nacional e milhares de manifestantes desceram os Campos Elísios contra a violência e a anarquia, a favor do governo de De Gaulle, no que foi a verdadeira revolta da maioria silenciosa.
Em finais de Junho houve eleições legistativas, vencidas por Charles De Gaulle, ficando a direita com a maioria absoluta na Assembleia Nacional.
Para José Rebelo, o Maio de 68 foi um clamor colectivo, um virar de página e um epílogo da modernidade. “É sobretudo uma rejeição e denúncia e não uma proposta, contesta-se mas não é avançada uma alternativa”, disse José Rebelo, fazendo notar que este movimento introduziu novas formas de estar, de viver e de sentir.

Grande repercussão junto dos comunistas

Para a autora e editora Zita Seabra o sentido do Maio de 68 foi “ter existido”, não tanto do ponto de vista político-partidário, mas porque modificou muitos dos aspectos da vida quotidiana das pessoas.
“O Maio de 68 modificou todo o sentido da vida daquilo que era a França e a Europa dessa época”, disse sobre o acontecimento que se sentiu como movimento social, sindical e de aspiração a revolução. Teve uma profunda repercussão cultural na poesia, escrita e principalmente no cinema e foi “uma inspiração para tudo o que aconteceu a seguir” no que respeita à liberdade e cidadania.
Zita Seabra foi para Paris em 1967 para evitar ser presa em Portugal por actividade ligada ao Partido Comunista. Regressa, para ficar numa casa clandestina do partido situada numa pequena aldeia do Norte, a 1 de Maio de 1968 e aí ficou até ao 25 de Abril de 1974. Característica comum nessas casas era o facto de terem bons rádios, que lhe permitia ouvir a Rádio Portugal Livre e a Rádio Moscovo, e acompanhar o que faziam os estudantes em França.
A editora, que na altura pertencia ao PCP, lembrou que o Maio de 68 teve uma grande repercussão junto dos comunistas. O movimento foi “contra o general De Gaule, mas também contra o Partido Comunista Francês, que era na altura o primeiro partido eurocomunista”, contou Zita Seabra, acrescentando que o PCP continuava alinhado com a União Soviética. É no seguimento destes acontecimentos em França que começam a aparecer em Portugal, entre os estudantes, os movimentos pró-maoistas, pro-chineses e pro-trotskistas.
A fundadora da Alêtheia Editores falou ainda nas alterações que este movimento provocou na vida das mulheres e emancipação feminina, lembrando que pouco tempo antes tinha sido inventada a pílula contraceptiva.

Especial para a humanidade

Também o escultor José Aurélio estava em Portugal em Maio de 68, mas pouco tempo antes tinha estado em França. Aos 30 anos tinha ido para aquele país entre finais de 67 e inícios de 68, onde teve oportunidade de assistir aos ataques da polícia às pessoas na rua, que tinham que se refugiar onde conseguiam.
Para o artista plástico, o Maio de 68 não aconteceu por acaso, tal como nenhum outro movimento ou revolução, havendo sempre razões que levam a esses acontecimentos. “O ano de 68 é especial para a humanidade, com uma série de descobertas, escritores e políticos que se destacam e transformaram uma educação clássica, que existiu até ao século XX, numa ambição de uma nova realidade, principalmente para os jovens”, sintetizou.
José Aurélio lembra que ía a França viver coisas que em Portugal eram inacessíveis, como ir ao cinema, ver museus e bibliotecas e “que nos fazia sonhar com um mundo melhor”. Desde sempre ligado à esquerda, o escultor lembrou ainda que foi nas Caldas que ganhou maior consciência política, com o seu médico e amigo, Custódio Maldonado Freitas.

Perigos dos movimentos populistas

A deputada socialista na Assembleia da República, Margarida Marques, em finais da década de 60 andava no ensino básico no Bombarral. Considera que o que se passou em França teve um “impacto enorme” nas sociedades europeias, ao nível do comportamento e valores sociais. “Foi uma forma de contestação à sociedade francesa, às instituições, aos seus partidos políticos”, disse.
Transpondo essa contestação às instituições para o presente, a ex-secretária de Estado dos Assuntos Europeus encontra paralelismo com os movimentos populistas que emergem na Europa quando os cidadãos não se sentem representados nas instituições nem nos partidos políticos tradicionais.
“O Maio de 68 teve uma duração limitada, os movimentos populistas têm uma dimensão diferente, bastante mais alargada e preocupante porque entram nas instituições democráticas”, concluiu.