Mulheres tiveram papel “dianteiro” na Revolução

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Com Abril, as mulheres conquistaram direitos que eram negados no Estado Novo

Os direitos das mulheres foram conquistados com Abril. Para a historiadora Raquel Varela ainda hoje há muitas desigualdades e nem todas são de género

“No 25 de Abril as mulheres ajudaram a transformar o país e, como tal, merecem lugar de destaque”. Esta é a opinião da historiadora Raquel Varela, que esteve nas Caldas, a 28 de fevereiro, a apresentar o seu último livro, Breve História de Portugal. Para a investigadora, que tem ligação ao concelho da Nazaré, “a própria revolução também mudou as mulheres”.E recordou que, durante os 13 anos de Guerra Colonial, – em que foram mobilizados mais de um milhão de homens – as mulheres passaram a ser chamadas para o trabalho assalariado, para laborar nas chamadas cinturas industriais. Nessa altura surgiram, igualmente, novas preocupações pois aumentaram exponencialmente os acidentes com as crianças, que ficavam sozinhas em casa enquanto as mães trabalhavam. Também as preocupava a falta de condições nos bairros mais pobres onde além de barracas não existia saneamento básico.
“Para a ditadura era funcional separar homens de mulheres e, desta forma, pagar-lhes muito menos”, disse a investigadora.
Com o 25 de Abril as coisas mudam e as mulheres passam a ter um papel central não só nas comissões de trabalhadores mas também nas comissões de moradores. Nas primeiras, e junto com os homens,pediram “trabalho igual, salário igual”.
Durante o Estado Novo, uma mulher não tinha direito ao divórcio e também não podia deslocar-se ao estrangeiro sem autorização do marido. Este último também podia abrir-lhe a correspondência. Além do mais, uma mulher não tinha direito a aceder a várias profissões tais como à de diplomata. O mesmo acontecia em relação às carreiras de juíza, polícia ou militar.
“O avanço dos direitos políticos é concomitante e faz parte dos direitos sociais”, disse a docente, acrescentando que as mulheres, nas comissões dos trabalhadores, além da equidade salarial, lutaram pela limitação do horário de laboração e para que o trabalho aos fins de semana “passasse a ser muito bem pago”.
Já nas comissões de moradores, Raquel Varela considera que as mulheres tiveram um papel “dianteiro” pois exigiram a abertura das creches e melhores condições relacionadas com as habitações. “A falta de saneamento básico era grave e, nos anos 70 do século passado, “houve cinco epidemias de cólera em Lisboa”, lembrou a investigadora acrescentando que as crianças estavam assim sujeitas a apanhar várias doenças.
Para Raquel Varela, as mulheres tiveram um papel relevante em áreas como a Saúde pois estiveram na linha da frente na ocupação de casas destinadas à instalação de centros de saúde e de creches.
As mulheres foram ganhando cada vez mais presença nos locais de trabalho formais enquanto que antes combinavam o trabalho doméstico com trabalho pago, muitas vezes, à peça ou no domicílio. Segundo a docente, no Estado Novo expande-se a força de trabalho feminina oficial “que passa a trabalhar em grandes fábricas e empresas e passa a ter um papel muito importante”.
A historiadora considera que continuam a existir muitas desigualdades e que “algumas delas até nem são entre homens e mulheres”.
Na sua opinião, quando se olha para mulheres como Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu ou Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, supomos que “não têm problemas de quem lhes fica com os filhos, de chegar a casa exaustas, sem ter tempo para namorar ou como é que vão pagar a conta do supermercado”, casos que não são representativos da maioria das mulheres.
Mais do que um Dia da Mulher ou do Homem , Raquel Varela defende que é preciso, todos os dias, “respeitar o trabalho, auferir salários dignos e ainda “ter boas condições de vida e o direito a sonhar”. Na sua opinião, o quotidiano “não pode ser um custo nem um peso”. Deve sim “ser uma felicidade com espaço amplos para as crianças conviverem e brincarem e onde os casais possam namorar, numa reinvenção total da sociedade”, rematou a historiadora. ■