Sandrina Patriarca foi eleita presidente de Junta do Olho Marinho com apenas 32 anos

0
598
A presidente, na sede da Junta de Freguesia, em frente à galeria dos seus antecessores... todos homens

Na Junta de Freguesia há pela primeira vez uma mulher a liderar e uma maioria feminina no executivo, com duas mulheres em três eleitos

Há três anos, no dia 26 de setembro de 2021, Sandrina Patriarca, então com 32 anos (feitos em abril), era eleita presidente da Junta da Freguesia do Olho Marinho, com 302 votos (que corresponderam a 41,5% do total, face aos 37,8 do PS, com 275). Tornava-se na primeira mulher a liderar os destinos da freguesia onde nasceu e, também, na mais jovem mulher eleita como presidente de Junta no concelho de Óbidos.
“Ser presidente de Junta com 32 anos, para uma mulher ou para um homem, é muito difícil”, frisa. Conseguir conciliar a profissão com o cargo é um dos desafios. “Há dificuldades inerentes para conquistar o respeito e a entrega de confiança, sendo mulher e sendo a primeira, a tarefa é mais difícil”, reconhece.
Sandrina Patriarca já desempenhou funções de liderança e afirma que “está provado que uma mulher tem que trabalhar o dobro para ter o mesmo reconhecimento que um homem, mas quando entramos nestas estruturas sabemos que é assim e vamos, porque temos algo para dar”. Para si, “ser jovem e ser mulher, é como uns Jogos Olímpicos, sabemos que é difícil, mas queremos lá estar”.
Numa Junta que celebra o centenário no próximo ano, este é o primeiro executivo que, além de encabeçado por uma mulher, tem maioria feminina (duas em três eleitos). “Vai fazer com que outras mulheres tenham a mesma coragem e vontade, que entendam que o contributo delas é válido. Somos as primeiras, mas tenho a certeza de que não seremos as últimas”, salienta.
Notando que a primeira vez que uma mulher votou foi em 1911 e que em 2006 houve diretrizes para a paridade nas Juntas de Freguesia, nota “o quão lento é este reconhecimento e quão trabalhoso tem vindo a ser. A Lei da Paridade é uma conquista… que envergonha todas as mulheres, porque se há uma obrigatoriedade, é porque o espaço para nós não é uma certeza como deveria ser”, afirma.
A autarca defende que “o trabalho que as mulheres fizeram outrora foi muito duro com os movimentos sufragistas. Hoje temos uma liberdade diferente e temos um campo de ação muito mais limpo, com mais espaço”. Ainda assim, frisa, não está tudo feito! Falta “valorizarmo-nos pela diferença, queremos ser respeitadas pela nossa diferença, falar em democracia e não haver mulheres na gestão política não é falar em democracia”, alerta. “A igualdade significa respeitar as diferenças e haver espaço para que possamos interagir de forma plena”, destaca Sandrina Patriarca.
Notando que nunca houve em Portugal uma Presidente da República ou uma primeira-Ministra eleita para tal (houve Maria de Lurdes Pintassilgo, mas nomeada para chefiar um governo de gestão), Sandrina Patriarca assume que tal “diz muito sobre a nossa sociedade. Tenho total orgulho do caminho feito, mas uma consciência maior do que está por fazer”, diz, frisando que também é preciso que as mulheres se apoiem mais umas às outras.

A política veio naturalmente
A consciência política, essa, “foi muito silenciosa, existiu em mim antes mesmo de eu ter consciência que existia”, conta. Desde criança fez parte das associações da sua terra. “Participei em todas: ranchos, marchas, coro, teatro, catequese, grupos de igreja, todas menos futebol e costumava brincar a dizer que só não fui para o futebol porque ninguém me convidou!”, exclama. “Esta entrega à comunidade e visão de que as comunidades são o que queremos fazer delas, começou muito antes de imaginar que podia ter papel político, que surgiu como consequência deste trabalho”. Formada em Psicologia Educativa, entrou no mercado de trabalho e percebeu que “as atividades que me davam mais prazer eram as que trabalhavam a comunidade”. Foi numa fase em que percebeu que “tinha uma consciência social e comunitária muito marcada, que surgiu o convite da estrutura política, neste caso o PSD, para ser candidata”, recorda. “Estava com muitas dúvidas em aceitar este desafio, mas tinha consciência de que poderíamos fazer a diferença no que seria a comunidade no futuro. Com medo, aceitei. Foi assim que surgiu, não foi uma questão pensada antecipadamente, foi encadeada no que é o meu papel social e comunitário e surgiu como um acaso trabalhado, diria, porque embora não tenha sido planeado por mim, foi desenhada por mim esta relação que consigo ter com as pessoas”.
Sandrina Patriarca “não era militante do partido, nunca fui e ainda hoje não sou”, realça. “Vejo a minha participação além dos partidos, estamos pelas pessoas, sendo que é indiscutível a importância dos partidos na nossa democracia, mas vincular-me a um distanciar-me-ia do que era o meu propósito inicial”, explica, esclarecendo que “houve uma relação de compreensão e respeito e foi possível estar na Junta de Freguesia como candidata independente com o apoio do PSD”.

O Dia da Mulher
Quisemos saber se na opinião da autarca ainda faz sentido celebrar o Dia da Mulher. “Para mim faz sentido celebrar sempre e todos os dias a Mulher, a cada conquista de uma mulher ao nosso lado, um prémio, o reconhecimento profissional, uma decisão bem tomada, é de celebrar”, diz. “Numa sociedade em que as coisas acontecem a uma velocidade que muitas vezes não conseguimos acompanhar, é necessário um dia para parar e lembrar que há décadas atrás havia mulheres em lutas muito duras que fizeram com que hoje possamos ter capacidade diversa e liberdade de poder atuar, refletir, ser e estar em qualquer situação. Diria que faz sentido, mas não nos podemos esquecer de celebrar todos os dias”.■