“Votar AD também é protestar. É preciso revigorar o sistema e não pontapeá-lo e violentá-lo”

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Telmo Faria tem o “sonho” de eleger cinco deputados pelo círculo eleitoral de Leiria

Aliança Democrática Regressado à política pelo impulso de fazer qualquer coisa num contexto que indicia que “estamos a voltar às ditaduras”, Telmo Faria acredita num “grande resultado eleitoral” para a AD nas Legislativas de 10 de março. Em Leiria espera, “pelo menos”, a eleição de cinco deputados

 

Revelou que foi convidado para a AD quando o Benfica estava empatado com o Rio Ave – e depois ganhou 4-1. Mas o PSD vem de uma derrota comprometedora em Leiria nas legislativas. Como dar a volta a esse resultado?
O Rio Ave também começou a ganhar nesse jogo… O convite foi em janeiro, estávamos a empatar [nas sondagens], mas no último mês já começámos a mostrar que o resultado final pode ser bastante interessante. Há muito ânimo e muito otimismo. A população queixava-se que entre PS e PSD não havia diferenças e hoje, com a abertura do debate, vemos de forma muito nítida as diferenças. O PS tenta justificar a governação a todo o tempo, com um ensaio de “agora é que é”. Não é suficiente: a esmagadora maioria dos portugueses está descontente com este Governo.

A AD assume-se como alternativa pelo descontentamento com o PS ou pelas próprias propostas?
É impossível separar. A AD é um instrumento de esperança para mudar a vida dos portugueses mas também aproveita descontentamento. Seria muito difícil, se o país estivesse bem, ter um projeto alternativo e falar de esperança. O que há é desesperança, desespero.

Há desesperança com a classe política. Há cinco anos disse que precisava de se afastar da política, para depois voltar?
Durante estes 11 anos em que estive afastado, nunca disse que tinha saído definitivamente da vida política. Nunca se sai. Conhecer a realidade do país, viver os problemas que toda a gente vive, é uma construção política da nossa individualidade. Saber, por exemplo, que se aumenta um salário em 200 euros e que só 100 ou menos vai para o bolso das pessoas ou conhecer as dificuldades para o financiamento de um projeto… Considero-me um cidadão que sente na pele todos os dias o peso da fiscalidade tremenda e multiplico a partir da minha realidade a realidade dos outros.

Como quer convencer pessoas frustradas com a governação?
O único caminho é o da seriedade política e fazer propostas que convençam os portugueses. O PSD, através da AD, está a mostrar soluções. Por exemplo: Luís Montenegro foi o candidato que mais se preparou nas questões da saúde – e isto não era comum na área do PSD; estamos com medidas para a Cultura como nunca tivemos, com o aumento de 50% para a Cultura – nunca um partido do centro, centro-direita fez isto!; estamos com um discurso para a Educação como nunca tivemos. Acredito que todas estas escolhas são compreendidas porque tocam nos grandes problemas que os portugueses falam. Podem ter a tranquilidade que vamos mudar o país para melhor.

Um seu companheiro no PSD [Feliciano Barreiras Duarte] descreveu há anos o distrito como gigante económico e anão político. Mantém-se atual. Como quer a AD alterar isso?
Valeu de pouco o PS ter um cabeça-de-lista que foi secretário de Estado da Saúde e uma pessoa influente – hoje conhecemos o estado da saúde no distrito. E valeu de pouco termos um número 2 que foi líder parlamentar do PS e também uma pessoa influente na estrutura da governação. O distrito deu uma vitória ao PS e o PS não trouxe benefícios às expectativas que a nossa população tem. A AD pede um grande resultado eleitoral em Leiria para fazer uma afirmação política muito forte.

O que é um grande resultado para a AD em Leiria?
Temos o sonho de eleger pelo menos cinco deputados. Se esta vaga tão positiva da AD a nível nacional se mantiver dentro de um mês, estamos convencidos que, com o nosso trabalho no distrito, podemos chegar aí. Eleger metade dos deputados [do distrito] é uma grande vitória.

Onde quer ir buscar votos para o quinto deputado?
Àqueles que estão descontentes. Os eleitores têm sempre uma postura séria e bem intencionada. Só que há eleitores que não acreditam quando a esmola é demasiada: eu adorava não pagar IMI, mas o partido Chega não vem dizer “vamos reduzir progressivamente o IMI”, ou “vamos baixar um pouco este imposto ou o outro”. Fala de eliminação ou de aumentos dos pensionistas…

Espera que eleitores do Chega mudem de ideia e votem AD?
Muitos eleitores equacionam entre AD e Chega. Sinto que está a haver uma transferência de eleitores, por força da atuação política e da intervenção credível de Luís Montenegro para que as pessoas protestem de forma útil. Votar AD também é protestar. Apresentando as nossas medidas e um quadro de certa libertação, vamos revigorar o país. Mas é preciso revigorar o sistema e não pontapeá-lo e violentá-lo por dentro, através dessa caixa de Pandora dos extremismos que o dr. António Costa resolveu abrir irresponsavelmente em 2015, para se ver livre de um governo que tinha ganho as eleições.

“Distrito de Leiria é um gigante que pode explodir muito mais”

No distrito de Leiria, qual é a posição da AD sobre o novo hospital do Oeste?
Que se faça, que se ande para a frente com esse equipamento.

No Bombarral?
Não estamos a discutir a localização. O novo embuste político dado a esse hospital é ter sido decidido mas, no orçamento, não há dinheiro nada, nem se quer para um estudo. O PS fez teatro político no distrito de Leiria: tentou meter as pessoas à bulha sobre a questão a localização.

E sobre a Linha do Oeste e Alta Velocidade?
Precisamos de modernizar. Tenho uma posição muito crítica sobre a decisão do TGV. Não me convence a explicação do Governo para fazer o TGV primeiro entre Lisboa e Porto, porque faz à custa do número de passageiros que existem hoje entre as duas cidades, e não ter feito em primeiro ligar uma ligação à Europa através de Madrid. Madrid acaba de anunciar há poucos dias a ligação a Paris. Nós, que somos periféricos, a primeira coisa que tínhamos de fazer era ligarmo-nos lá fora.

Leiria tem defendido Santarém para o novo aeroporto…
Precisamos de ter um aeroporto a norte do Tejo. Mas não estou a falar do que será a decisão do governo da AD no futuro. Não me chocaria que o aeroporto fosse em Santarém, pela área disponível, porque é relativamente próximo de Lisboa e, acima de tudo, porque, apesar de se chamar aeroporto de Lisboa, na verdade precisamos de um grande aeroporto de Portugal. Resolvido o aeroporto, conseguindo ligar a Madrid [com a Linha de Alta Velocidade], o país teria, aí sim, a possibilidade de ser a tal “Califórnia da Europa”. Temos uma potencialidade extraordinária mas não temos intérpretes que sejam aceleradores dessa riqueza.

Ainda na mobilidade, tem posição sobre a ligação do IC9 à A1?
Estamos a ouvir os autarcas. Nos últimos anos construiu-se esta ideia de que temos estradas a mais e que não é preciso gastar dinheiro público nas estradas. Concordo com investimentos públicos que têm de ser feitos. Não sou especialista em ligações, nem perfis de estradas, nem em hospitais: temos de perceber com os autarcas e as populações o que é importante e conseguir lutar por isso.

E sobre a autoestrada que passa na Batalha, feita com o argumento de que serviria para desviar o trânsito da frente do Mosteiro? É a favor da isenção de portagens na A19?
Temos de resolver esse problema. Já assistimos a muita conversa sobre o assunto e não podemos continuar assim. O distrito de Leiria tem uma grande vantagem relativamente a outros territórios: a paisagem monumental. Tem castelos, tem mosteiros… Num raio de 25 minutos, temos Óbidos, Porto de Mós, Leiria, Alcobaça, Batalha… Cinco ícones da paisagem cultural construída. É um gigante que pode explodir muito mais. Temos de ter um paradigma para o turismo e para o nosso território muito bem feito. Se as pessoas acham que já estamos bem, estão muito enganadas: podemos criar muito mais emprego, muito mais riqueza e acentuar muito mais a qualidade de vida dos nossos residentes atuais e futuros.

Outra questão com “barbas” é a poluição das suiniculturas.
Espantei-me como é que temos ainda problemas com poluição ou necessidades de despoluição e de construção de estações de tratamento. Como é que não conseguimos equilibrar as atividades económicas com a grande questão da defesa ambiental da bacia hidrográfica do Lis?

Como se revolve isso?
Com investimento público, com intervenção e regulação sobre determinados sectores que não têm de ser proibidos, mas que têm de trabalhar como deve ser.

Tem sido tentado e não tem funcionado…
Não temos estes problemas no país inteiro. Noutros pontos do país, onde há problemas com poluidores, temos conseguido resolvê-los. Temos de ter a rede hidrográfica bem despoluída e temos de ter os investimentos no tratamento bem feitos. Isto não nos dignifica e é das questões que temos de resolver mais cedo.

Com esta candidatura, como ficam os seus projetos de hotelaria em Óbidos?
Os meus projetos vivem da capacidade operacional extraordinária assente em quatro jovens, que fazem coisas maravilhosas. Estava a arrancar com um novo hotel [quando surgiu o convite de Montenegro]. Não estou na política à procura de emprego. Vou ter de aumentar os meus investimentos para me substituir [à frente dos projetos]. Nesse aspeto a política não é a opção mais vantajosa. Fiz intervenção política durante 12 anos como autarca: ali não há desculpas. E eu fui reeleito duas vezes com quase 50%. Tendo tido essa experiência e vendo o país como está – com ataques ao sistema político e os extremismos que crescem à custa da falência dos sistemas políticos liberais – e eu estudei as ditaduras com Fernando Rosas! -, pensei: “Temos de fazer alguma coisa”. Estamos a voltar às ditaduras. Temos de ir para o combate, antes que haja guerras de outro tipo. Por isso respondi [ao convite], impulsivamente, para dar o meu contributo político, alistando-me nesta “guerra”. Mas quero continuar a acompanhar os meus trabalhos empresariais. Não me tirem isso.

Se a AD for Governo está disponível para o executivo?
Acho muito difícil. Sou candidato a deputado porque precisamente me dá a possibilidade de não estar em exclusividade na vida política. Nós pregamos imenso e dizemos muito aos outros o que eles devem fazer. E eu senti necessidade de ir fazer o que andava a pregar.

Não o pode fazer como secretário de Estado do Turismo, por exemplo?
Acho perfeitamente incompatível eu querer afirmar linhas de turismo sustentável [nos seus investimentos] e ir coordenar o sector do Turismo em Portugal. Não podia fazê-lo. Se queremos mostrar às pessoas caminhos, é pô-los de pé. Estou a fazer agricultura regenerativa, começámos agora a agricultura biológica, a combinação entre modelos de vivência em floresta, agricultura, turismo, habitação… Quero demonstrar isso. Isso dá-nos informação para a nossa intervenção política.

O seu nome é frequentemente falado para recuperar a Câmara de Leiria para o PSD. Está no seu horizonte?
No meu horizonte está ser eleito deputado no próximo dia 10. Não mais do que isso. Os autarcas têm de ser autarcas da sua própria região. Se a minha candidatura foi muito bem recebida porque o cabeça de lista é, precisamente, do distrito de Leiria – ao contrário, por exemplo, do PS -, como faz sentido ser presidente de câmara de uma terra onde nunca se viveu? Uma coisa é conhecer Leiria, gostar de Leiria, amar Leiria, e ver o potencial de Leiria. Estamos cá para ajudar mas não para ser protagonistas em tudo. O PSD agora alargou-se, vai atrair muitos quadros. Está outro PSD e estamos convencidos que o partido pode construir uma solução muito interessante. Fomos sempre o partido do coração dos leirienses. Podemos, a qualquer momento, reabilitar-nos com os leirienses. [O que aconteceu] É culpa do partido, agora é preciso escolher pessoas certas. Não é preciso ninguém de Óbidos. Se o partido souber perceber isso, não vai ter problema em ter candidatos.

Manuel Leiria – Entrevista conjunta REGIÃO DE LEIRIA/GAZETA DAS CALDAS

Perfil

Formado em História, licenciou-se em Coimbra e fez mestrado em Lisboa, na Nova. Entre 2001 e 2013 presidiu à Câmara Municipal de Óbidos – de onde é natural -, projetando o concelho e a vila, que colocou no “mapa” com eventos ligados à cultura e ao entretenimento. A carreira política ficou em pausa há 11 anos, para se dedicar aos negócios, criando no concelho de Óbidos os hotéis Rio do Prado, The Literary Man Obidos Hotel e The History Man. Em paralelo, nos últimos anos tem investido em projetos de hotelaria sustentável

Lista de candidatos da Aliança Democrática

1 – Telmo Faria

2 – Hugo Oliveira

3 – Sofia Carreira

4 – João Santos

5 – Ricardo Carvalho

6 – Liliana Sousa

7 – Célia Freire

8 – Graciano Dias

9 – João Cerejo

10 – Cristina Leitão