A escola do futuro tem que ser mais centrada no aluno

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O painel falou de educação perante uma plateia interessada durante quase três horas

Colóquio “O Futuro é Hoje” baseou-se num modelo de ensino direcionado às necessidades de cada aluno

O grande auditório do CCC foi palco do colóquio “O Futuro é Hoje: comunidades de aprendizagem”, que proporcionou uma conversa de cerca de três horas com a qual se pretendeu lançar sementes para uma melhor resposta da educação às necessidades dos alunos num mundo em grande transformação. As comunidades de aprendizagem, conceito lançado pelo professor José Pacheco na Escola da Ponte, foi a base da conversa que contou com o secretário de Estado da Educação, António Leite, a vereadora do município das Caldas da Rainha com a pasta da educação, Conceição Henriques, os três diretores de agrupamento de escolas do concelho e ainda os professores Luís Mocho e Adélia Lopes.
O colóquio, que teve moderação de Cátia Desidério e foi integrado na comemoração dos 98 anos da Gazeta das Caldas e no Youth Summit (promovido pelo Gabinete da Juventude do município das Caldas), começou com o testemunho, em vídeo, de um conjunto de alunos das escolas caldenses sobre o que sentem como necessidades para o seu ensino. Testemunho complementado com o depoimento de João Rosa, encarregado de educação que se tem batido por alterações ao modelo de ensino. “A escola para mim sempre foi um fardo muito grande. Quando a minha primeira filha nasceu, pensei se seria o mesmo para ela, fiz pesquisas pela escola com que sempre sonhei e encontrei a Escola da Ponte e outros projetos e iniciativas”, contou, lamentando não encontrar na região essas opções. E desejou que do encontro “saiamos com mais coragem de iniciar turmas piloto, pequenos projetos, para ser parte da solução em comunidade”.
Mas o que são as comunidades de aprendizagem? José Pacheco, professor que fundou a Escola da Ponte, conhecida por desafiar o modelo educacional tradicional ao enfatizar a participação ativa dos alunos no processo de aprendizagem, vai à América do Sul, onde tem feito trabalho nesta área, buscar uma referência. “Lá, aprendi com as comunidades indígenas que para educar uma criança é preciso uma comunidade inteira”, afirmou.
E deu exemplos práticos de como funciona o processo, entre os quais o de André Mesquita, aluno com Síndrome de Down que chegou à Escola da Ponte depois de passar em duas escolas “onde não aprendeu a ler, nem o nome identificava, até tinha beneficiado de ensino especial”. “Perguntei ao André o que ele queria ser e ele disse que queria ser guarda-redes. Construímos um projeto de vida para ele ser guarda-redes. Fez o ensino básico, formação profissional, e quando Portugal ganhou o campeonato Europeu de futsal para atletas com Síndrome de Down, o André Mesquita era o guarda-redes da seleção”, contou.
O professor Luís Mocho, diretor que introduziu as comunidades de aprendizagem na escola Manuel Damaia, em Lisboa, afirmou que no atual sistema de ensino se quer dar autonomia e responsabilidade aos alunos, “mas depois decidimos tudo nós, os adultos”. E isso muda com as comunidades de aprendizagem, centrando o processo nos alunos e dando-lhes autonomia para aprenderem o que precisam, quando precisam. “Mudando o paradigma, podemos dizer-lhes que decidam, que errem, que nós professores estamos cá para os ajudar”, afirmou, acrescentando, no entanto, que para isso são precisos “mais professores, mais técnicos, mais psicólogos, e se a escola é comunidade, temos que contar mais com os pais também, porque todos somos educadores”.
António Leite, secretário de Estado da Educação, elogiou a disponibilidade dos presentes para se pensar a educação. O governante destacou que a escola de hoje nada tem a ver com a de há 40 anos, quando começou a lecionar, e disse que o ministério não fecha a porta a mudanças. “Por vezes, o ministério só precisa de ser desafiado para fazer de maneira diferente e olha, seguramente, com grande simpatia para esses desafios”, disse. António Leite destacou que, no atual mandato, já se “conseguiu que escola pública tenha um grau de autonomia que só as escolas privadas tinham até há algum tempo”. Mas também sublinhou que é preciso um sistema que garanta condições de sucesso no acesso ao conhecimento e desenvolvimento de competências “a todos e a cada um”.
Uma necessidade que Conceição Henriques, vereadora da Câmara das Caldas, também defendeu, afirmando que a introdução de novas metodologias pode, no entanto, beneficiar os alunos. A vereadora referiu que o município tem essa abordagem no plano de atividades extracurriculares, porque “a educação não se esgota na sala de aula modelo e, no imediato, o nosso município poderá ser mais útil no aprofundamento desse apoio à escola do que ao intervir na escolha do modelo educativo”.
A abertura do ministério a propostas agradou a José Pacheco, que desafiou os presentes a constituir um grupo de trabalho com ministérios, municípios, escolas, pais e mães, “para definir regras da criação de uma nova construção social”, para que se possam, depois, definir assembleias de redes de comunidades de aprendizagem para discutir este tema com acesso a especialistas em ciências da educação. “Portugal vai dar novos mundos ao mundo”, concluiu. ■